Pesquisador que estudou consumo parcelado na periferia diz que endividamento não significa compulsão

Dan Stulbach, José Godoy e Luís Gustavo Medina receberam no Fim de Expediente o geógrafo e professor Kauê Lopes dos Santos, que falou sobre o livro "Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia". O livro nasceu a partir de seu mestrado em 2010 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, em que investigava o assunto. Depois, transformou em livro, com uma linguagem que fizesse a pesquisa e suas reflexões serem difundidas para um público mais amplo. "Eu tinha interesse em entender um pouco as contradições que existiam na periferia, na paisagem periférica, que eram marcadas por uma precariedade de infraestruturas e serviços muito grandes, visíveis na paisagem, com a questão de saneamento básico, precário, pavimentação de ruas precárias e assim por diante. E ao mesmo tempo moradias autoconstruídas que tinham uma população enorme de objetos que a gente considera modernos, televisões, aparelhos de DVD e assim por diante." Para entender a consolidação dessas contradições, foi preciso se voltar à questão do crédito, que foi um dos elementos mais importantes para possibilitar o consumo, já que antes era preciso o "entesouramento" (juntar todo o dinheiro antes de poder obter o item). "Evidentemente, não tinha como ser diferente, o crédito ele é uma das variáveis fundamentais para a gente entender esse processo, esse crédito que se capilariza para a população de baixa renda. [....] E realmente é uma estrutura que se consolida a partir do início dos anos 2000, mas que se pavimenta nos anos 90 também com a estabilização da moeda, etc. E aí a gente sai de um cenário no qual o entesouramento era a regra para você comprar os produtos. As famílias nas periferias compravam também televisão, mas era a partir do entesouramento, juntava o dinheiro e comprava." Kauê Lopes dos Santos fala que seu interesse era estudar o contraste "dessa convivência que é muito brasileira", de periferias que têm muita precariedade material ao mesmo tempo que têm objetos muito modernos, em termos dessas tecnologias da informação. "O consumo é uma chave da nossa sociedade, a forma como esse consumo se estruturou na nossa sociedade, que torna o Brasil uma dessas grandes potências de mercado consumidor. E a gente tem a publicidade funcionando de forma muito eficiente para isso, a obsolescência programada das mercadorias funcionando de forma muito eficiente para isso, e a gente está o tempo todo comprando." O pesquisador destaca que, apesar de a educação financeira para entender melhor a complexidade das parcelas e taxas de juros ser importante para trazer uma melhora na gestão do orçamento doméstico, ele notou que já existe uma organização dessa população com relação ao orçamento, e que o endividamento não significa consumo desenfreado. "O que a gente foi observando era a compra de objetos necessários para o cotidiano, mas que o orçamento dessas famílias não conseguiriam cobrir tudo à vista. Então, a condição para garantir esse consumo era o crédito. Então, essa que é a complexidade da coisa. Tem um conhecimento e tem uma gestão desse orçamento, mas, claro, acho que seria importante a gente também pensar em formas de entender como seriam esses juros compostos, enfim, trabalhar um pouco numa educação financeira." Ouça a entrevista completa

Pesquisador que estudou consumo parcelado na periferia diz que endividamento não significa compulsão

Dan Stulbach, José Godoy e Luís Gustavo Medina receberam no Fim de Expediente o geógrafo e professor Kauê Lopes dos Santos, que falou sobre o livro "Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia". O livro nasceu a partir de seu mestrado em 2010 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, em que investigava o assunto. Depois, transformou em livro, com uma linguagem que fizesse a pesquisa e suas reflexões serem difundidas para um público mais amplo. "Eu tinha interesse em entender um pouco as contradições que existiam na periferia, na paisagem periférica, que eram marcadas por uma precariedade de infraestruturas e serviços muito grandes, visíveis na paisagem, com a questão de saneamento básico, precário, pavimentação de ruas precárias e assim por diante. E ao mesmo tempo moradias autoconstruídas que tinham uma população enorme de objetos que a gente considera modernos, televisões, aparelhos de DVD e assim por diante." Para entender a consolidação dessas contradições, foi preciso se voltar à questão do crédito, que foi um dos elementos mais importantes para possibilitar o consumo, já que antes era preciso o "entesouramento" (juntar todo o dinheiro antes de poder obter o item). "Evidentemente, não tinha como ser diferente, o crédito ele é uma das variáveis fundamentais para a gente entender esse processo, esse crédito que se capilariza para a população de baixa renda. [....] E realmente é uma estrutura que se consolida a partir do início dos anos 2000, mas que se pavimenta nos anos 90 também com a estabilização da moeda, etc. E aí a gente sai de um cenário no qual o entesouramento era a regra para você comprar os produtos. As famílias nas periferias compravam também televisão, mas era a partir do entesouramento, juntava o dinheiro e comprava." Kauê Lopes dos Santos fala que seu interesse era estudar o contraste "dessa convivência que é muito brasileira", de periferias que têm muita precariedade material ao mesmo tempo que têm objetos muito modernos, em termos dessas tecnologias da informação. "O consumo é uma chave da nossa sociedade, a forma como esse consumo se estruturou na nossa sociedade, que torna o Brasil uma dessas grandes potências de mercado consumidor. E a gente tem a publicidade funcionando de forma muito eficiente para isso, a obsolescência programada das mercadorias funcionando de forma muito eficiente para isso, e a gente está o tempo todo comprando." O pesquisador destaca que, apesar de a educação financeira para entender melhor a complexidade das parcelas e taxas de juros ser importante para trazer uma melhora na gestão do orçamento doméstico, ele notou que já existe uma organização dessa população com relação ao orçamento, e que o endividamento não significa consumo desenfreado. "O que a gente foi observando era a compra de objetos necessários para o cotidiano, mas que o orçamento dessas famílias não conseguiriam cobrir tudo à vista. Então, a condição para garantir esse consumo era o crédito. Então, essa que é a complexidade da coisa. Tem um conhecimento e tem uma gestão desse orçamento, mas, claro, acho que seria importante a gente também pensar em formas de entender como seriam esses juros compostos, enfim, trabalhar um pouco numa educação financeira." Ouça a entrevista completa