Para os investidores, os democratas podem conter os arroubos de Trump e trazer mais estabilidade global ao conquistar a maioria no Congresso
A expressiva vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos gerou uma onda de otimismo no mercado nesta quarta-feira 4. Enquanto as principais bolsas de valores do mundo operam em alta, os juros futuros no mercado americano recuam. Segundo os analistas, tais reações representam a expectativa dos investidores de que, ao conquistar a maioria dos assentos no Senado e na Câmara, o Partido Democrata será capaz de conter o presidente republicano Donald Trump nos dois anos de governo que ainda lhe restam. “A perspectiva de um governo dividido no Congresso americano foi recebida de forma otimista pelos agentes financeiros”, afirma Rebecca Nossig, estrategista de ações da corretora Nomad. “Esse desenho político reduz as chances de mudanças econômicas bruscas e traz uma maior previsibilidade global.”
Previsibilidade é algo que soa como música aos ouvidos dos investidores, após dois anos de ações erráticas e intempestivas de Trump que causaram grande turbulência no cenário global, tais como o tarifaço imposto a praticamente todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos e a guerra contra o Irã, que catapultou o barril de petróleo para mais de 100 dólares.
O avanço democrata deve contribuir também, segundo os analistas, para melhorar a própria economia americana. É verdade que o mercado de trabalho americano continua sólido e o crescimento anualizado de 3,4% do produto interno bruto no terceiro trimestre ficou acima do esperado, mas a expansão do rombo fiscal e da dívida pública preocupam os investidores. Agora, espera-se que os democratas imponham freios à gastança de Trump. “A nova composição legislativa pode limitar cortes de impostos e gastos do governo, reduzindo preocupações com o endividamento federal”, afirmou a Ágora em relatório enviado aos clientes nesta manhã.
O resultado final das eleições pode consolidar o otimismo do mercado. Isto, porque a vitória democrata já era amplamente esperada pelos analistas e boa parte dela já estava precificada nos ativos de renda fixa e de renda variável. Se superar as projeções de assentos no Senado e na Câmara, porém, o Partido Democrata pode ter mais poder de barganha que o esperado pelos observadores, o que reforçaria seu papel de contrapeso aos arroubos de Trump. “Para os mercados, o principal será a diferença entre o resultado e o cenário já incorporado aos preços”, afirma o BTG Pactual em relatório publicado hoje cedo.
Por volta das 11h20 (horário de Brasília), os democratas haviam conquistado 54 assentos no Senado – um avanço de sete lugares sobre a situação anterior à eleição -, e 228 cadeiras na Câmara – 25 a mais que antes da eleição. O partido também aumentou em cinco o número de governadores, somando agora 28.
Os resultados contribuíram para que uma alta generalizada das bolsas. Em Xangai, a alta foi de 1,67%. Na Europa, onde os mercado se preparam para fechar o dia, o Índice DAX da Bolsa de Frankfurt subia 1,91%; o CAC 40, da Bolsa de Paris, avançava 2,12%; e o FTSE 100, da Bolsa de Londres, 1,79%. Nos Estados Unidos, o S&P 500 e a Nasdaq se valorizavam respectivamente 0,36% e 0,83%. Já o índice Dow Jones recuava 0,38%.
Por volta das 11h30, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, avançava 1,08% para 167 323 pontos. Para os analistas, isso mostra que o Brasil também foi contagiado pelo otimismo internacional, pois o outro possível gatilho para uma alta não está no radar dos investidores. Trata-se de uma eventual queda da taxa básica de juro, a Selic, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), cuja decisão será anunciada hoje após o fechamento dos mercados.
Os investidores atribuem mais de 70% de probabilidade de o Copom manter a Selic em 13,75% ao ano, diante da falta de sinais claros de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotará um ajuste fiscal crível em seu quarto mandato, após permitir que a dívida pública saltasse de 72% do PIB para 83% de 2023 a 2026.
Fonte: veja.abril.com.br