Promotoria investiga suspeitas de irregularidades financeiras; instituição atende cerca de 3 milhões de pessoas
Oito dirigentes e ex-dirigentes do Ueno Bank foram detidos no Paraguai na terça-feira (3), após o Banco Central assumir o controle da instituição e bloquear o acesso dos clientes a contas e investimentos.
Entre eles estão o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e o vice-presidente e controlador do Grupo Vázquez, Federico Miguel Vázquez Villasanti.
Os detidos são investigados por possíveis crimes como lesão de confiança, fraude e conduta indevida em situação de crise. A promotoria ainda analisava se havia elementos suficientes para formalizar acusações.
Na quarta-feira (4), três deles se abstiveram de depor; seus advogados disseram que precisavam de mais tempo para preparar a defesa.
A investigação começou após uma denúncia do Banco Central, que entregou aos promotores um relatório de cerca de 200 páginas, acompanhado de milhares de páginas de documentos.
Além de Gustale e Vázquez, foram detidos Julio Rey, Diana Mongelós, Mariana Torres, Alejandro Gómez, Diego Duarte e Miguel Ángel Almada.
A promotoria disse que as detenções buscavam garantir que os investigados permanecessem à disposição da Justiça e ocorreram após receber informações de que alguns poderiam deixar o país.
Ser detido não significa que alguém tenha sido condenado ou que as suspeitas tenham sido comprovadas.
Banco Central assumiu o controle da instituição
O Banco Central tomou a medida depois que o índice de solvência do Ueno caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei. O órgão atribuiu a queda a ajustes nos balanços feitos durante um processo de regularização.
Em termos simples, a solvência indica se o banco tem capital suficiente para absorver perdas e honrar seus compromissos.
O Banco Central chamou a intervenção de procedimento de resolução. Na prática, agentes nomeados pelo órgão assumem o controle para levantar os ativos e as dívidas do banco, preservar seu patrimônio e definir como os depósitos serão tratados.
A operação pode envolver a transferência de contas a outras instituições ou a liquidação de ativos. Não é uma declaração judicial de falência.
O Ueno afirma ter cerca de 3 milhões de clientes, aproximadamente 60% da população adulta do país, segundo a Associated Press. A instituição também administra cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos.
Desse total, aproximadamente US$ 380 milhões são do Instituto de Previdência Social, que reúne fundos de aposentadoria e saúde.
Empréstimos a empresas ligadas ao controlador estão sob escrutínio
A crise veio depois de meses de questionamentos sobre empréstimos do banco a empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, seu controlador. O Banco Central afirmou ter alertado o Ueno sobre o volume de crédito concedido a companhias ligadas aos proprietários.
Reportagens do jornal paraguaio ABC Color, baseadas em documentos do regulador, descreveram empréstimos a empresas como Grupo Hendy, Grupo M e Mowi, ligadas ao conglomerado.
O jornal também apontou que o banco recebeu US$ 203 milhões em depósitos do setor público e do Instituto de Previdência Social entre fevereiro e abril de 2026, período em que concedeu novos créditos a empresas relacionadas ao grupo.
A coincidência entre os fluxos não prova que os depósitos públicos tenham sido repassados às empresas; a promotoria apura se houve irregularidades e quem seria responsável.
Clientes aguardam cronograma de pagamentos
A garantia legal cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa em cada banco, cerca de US$ 38 mil.
Uma estimativa preliminar citada pela AP indica que o limite protegeria integralmente aproximadamente 97% dos depositantes do Ueno. Saldos acima desse teto e recursos de fundos públicos, como os do sistema previdenciário, seguem sob análise separada.
O Banco Central prevê devolver os depósitos em etapas, com validação dos dados dos clientes; estimou um prazo operacional inicial de ao menos três dias úteis.
O Senado aprovou um projeto para antecipar até 121 milhões de guaranis por depositante, mas a Câmara dos Deputados ainda discutia a proposta na quarta-feira.
Caso amplia pressão sobre o governo
A crise também expôs vínculos entre o banco, o controlador e autoridades do país. O presidente Santiago Peña foi sócio empresarial do Grupo Vázquez até março de 2025.
Peña pediu a renúncia de Carlos Carvallo, chefe do Banco Central, que havia dirigido a antiga financeira Ueno antes de ser nomeado para o cargo em 2023.
Carvallo apresentou a renúncia, mas disse que permaneceria para acompanhar a intervenção. A oposição passou a defender um processo de impeachment contra Peña.
A repercussão chegou aos mercados. A Reuters informou que as dúvidas sobre a supervisão do banco e os empréstimos a empresas ligadas ao controlador pressionaram títulos do Ueno e da dívida soberana paraguaia.
O episódio ocorre enquanto o país tenta consolidar sua imagem como destino de investimentos na América do Sul. O Banco Central afirma que o caso é específico e não indica uma crise generalizada do sistema financeiro.
Fonte: veja.abril.com.br