Cineasta italiano foi um importante nome do cinema experimental e desafiou a censura e as convenções morais europeias
Morreu nesta quarta-feira, 4, em Roma, aos 93 anos, o diretor italiano Tinto Brass. A notícia foi confirmada pela esposa, Caterina Varzi, e pelos filhos, Bonifacio e Beatrice. A causa da morte não foi divulgada. Um dos nomes mais provocativos do cinema, Brass tem uma obra marcada por desafiar as convenções estéticas e morais de seu tempo. Seu filme de maior repercussão foi o controverso Calígula (1979), no qual o sexo é uma ferramenta de provocação política e social. A produção acumulou escândalos e chegou a ser censurada.
Nascido Giovanni Brass, em Milão, em 1933, o cineasta cresceu em Veneza e se formou em Direito antes de se render ao cinema. Na França, trabalhou na Cinemateca de Paris, onde entrou em contato com a efervescência da Nouvelle Vague. Estreou na direção com Quem Trabalha está Perdido (1963), um retrato irreverente da juventude italiana que também enfrentou problemas com a censura. Depois, realizou obras experimentais como O Uivo (1968) e Os Desajustados do Amor (1970).
A guinada para o erotismo ocorreu nos anos seguintes, quando Brass passou a investigar as relações entre desejo, poder e repressão. Em Salão Kitty (1975), ambientado na Alemanha nazista, explorou a instrumentalização do sexo pelo regime totalitário. O longa chamou a atenção de Bob Guccione, fundador da revista masculina Penthouse, que o convidou para dirigir sua produção mais célebre e problemática. Estrelado por Malcolm McDowell, Helen Mirren, Peter O’Toole e John Gielgud, Calígula pretendia retratar a decadência moral do Império Romano. Entre polêmicas, envolvendo até filmagens de cenas pornográficas feitas sem o consentimento do diretor, o filme enfrentou proibições e se transformou em um clássico cult do cinema transgressor.

A sensualidade se tornou sua assinatura. Em filmes como Miranda (1985), Paprika (1991) e Todas as Mulheres Fazem (1992), investiu em fantasias sexuais, personagens femininas desinibidas e situações de humor provocativo — o que também suscitou questionamentos sobre a objetificação das mulheres, expondo as contradições de um cineasta que defendia a liberdade sexual enquanto privilegiava o olhar masculino sobre o corpo feminino. Em setembro deste ano, o Festival de Veneza homenageou Brass com a exibição de uma cópia restaurada de Col cuore in gola. A retrospectiva serviu para recordar que, por trás da fama de provocador erótico, existia um realizador de ambições estéticas muito mais amplas.
Fonte: veja.abril.com.br