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Fúria (quase) sob controle: o mercado para se livrar da raiva está em alta

Natural da espécie humana, o sentimento pode agora ser extravasado em salas de destruição e retiros, mas livrar-se dele exige um mergulho profundo

Apesar das convenções que enquadram o convívio social sob um leque de regras, as pessoas sempre encontraram brechas para dar vazão àqueles sentimentos menos nobres e tão inerentes à espécie. Lá atrás, na Grécia Antiga, mulheres pausavam suas atividades cotidianas para participar de rituais dedicados a Dionísio, o deus do vinho, entre danças e gritos coletivos em que punham toda a raiva para fora. O mundo girou e, na década de 1960, o americano Arthur Janov se ateve à exasperação humana, que às vezes se converte em ira, sob a ótica da psicologia, disseminando mundo afora a terapia do grito primal. A ideia é extravasar as emoções contidas, valendo aí muito choro e berro para aliviar a revolta técnica que conquistou adeptos que lhe deram visibilidade, como o beatle John Lennon, mesmo sendo questionada pela comunidade científica. Pois agora, nestes exaltados tempos, o conceito voltou à baila na forma de salas nas quais indivíduos botam tudo para quebrar (literalmente) e de retiros voltados para trabalhar a fúria.

A versão moderna desses ritos de pura catarse, que dão carta branca para a perda de compostura, junta uma turma de gente irada que paga caro para se livrar da zanga e, não raro, faz até fila para entrar. As chamadas salas de raiva, que também se espalham pelo Brasil, reúnem eletrodomésticos e objetos de vidro com um curioso propósito tudo está lá para ser destruído. Nos Estados Unidos, a ultrapopular RAGEher une dezenas de mulheres em encontros de duas horas que mesclam socos e exercícios para moderar a cólera acumulada. Preço: 95 dólares. Foi em um desses estabelecimentos, a Sala da Raiva Joinville, em Santa Catarina, que a advogada Sabrina Diz, 32 anos, achou uma via inusitada para lidar com frustrações profissionais que a tiravam do sério. Presenteada pelo marido com uma sessão (custo de 80 reais), passou quarenta minutos marretando itens variados, como uma impressora. A sensação foi de alívio, como se tivesse acertado em cheio meus ressentimentos e os jogado fora, relata.

Conforme a clientela cresce, o mercado para se livrar da raiva se sofistica. Retiros de vários dias para debelar o incômodo sentimento envolvem, além do quebra-quebra, meditação e outras atividades centradas no autoconhecimento. A experiência pode ter como palco a verdejante paisagem de florestas no Oregon ou uma semana inteira em San Francisco, período no qual terapeutas ensinam a não pôr freios à irritação, ao preço de 20000 reais o pacote. Em Nova York, os espaços feitos para destruição oferecem para aqueles que já desanuviaram coloridos coquetéis com vista para os arranha-céus.

Pessoas sentadas em círculo no chão, em um ambiente com iluminação azul e roxa, velas acesas e um tapete persa no centro.
NA RODA – RAGEher, nos EUA: bate-papo depois dos estragosAmy Boyle/.
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A expansão desse nicho encontra terreno fértil em um mundo que parece viver cada vez mais à flor da pele. Segundo o relatório State of the Worlds Emotional Health, da Gallup, que traz um termômetro para aferir o nível de emoções diversas em um rol de 140 países, o Brasil entre eles, a fúria vem tomando vulto um de cada quatro entrevistados afirma ter sentido muita raiva no dia anterior à pesquisa, um crescimento expressivo na série de duas décadas. Uma vasta lista de fatores alimenta os raivosos do elevado custo de vida, que compromete a estabilidade, às sacudidas no mercado de trabalho, que trazem insegurança, incluindo o fervilhante caldo da polarização na política. Tudo isso pode intensificar a percepção de injustiça, um dos grandes gatilhos da raiva, sobretudo quando alguém considera ter sido prejudicado por decisões sobre as quais não tem controle. A onipresença das redes só faz subir a temperatura, conforme reverberam manifestações de hostilidade que engajam e se multiplicam.

Mulher sorridente, usando capacete de segurança, blusa escura e calça jeans clara, segura uma marreta. Ela está em um ambiente azulado com pichações SALA DA RAIVA JOINVILLE e QUEBRA TUDOOO. Ao lado, barris vermelhos empilhados com garrafas e um teclado.
Mão na massa – A advogada Sabrina Diz, 32, ganhou do marido uma sessão numa salinha em que, munida de uma marreta, mirou até uma impressora. Era como se tivesse acertado em cheio meus ressentimentos, conta.Arquivo pessoal/.
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Ao contrário do medo, que serve de alerta para escapar do perigo, a raiva desperta o impulso oposto de reagir ao que soa como afronta. A reação no cérebro começa na zona emocional, explica a neuropsicóloga Renata Alves Paes, da Uerj. É coisa de milésimos de segundo: a amígdala, estrutura que detecta ameaças, faz uma rápida avaliação da situação e aciona o hipotálamo, que põe em marcha o sistema nervoso. A adrenalina acelera então o coração, aumenta a pressão e tensiona os músculos. Até este ponto, a irracionalidade se impõe. Só depois entra em cena a região pré-frontal, responsável por ponderar e medir as consequências. É nesse minúsculo intervalo entre emoção e razão que fazemos aquilo que vamos lamentar, explica Renata. Nas salas de raiva e nos retiros, a proposta é justamente neutralizar o freio natural à racionalidade, permitindo que os participantes se expressem sem medo de julgamento. Foi libertador para mim, conta a empresária Vivian Sobral, 49 anos, que estreou na área em um encontro com vinte mulheres, na Califórnia, em que gritos e pancadas com taco de beisebol eram parte do show. Gostou tanto que já repetiu quatro vezes.

É verdade que a quebradeira pode vir seguida de alguma paz interior, mas os cientistas alertam que o efeito é apenas temporário. Para duelar com a raiva para valer, enfatizam, é preciso ir mais fundo. Um conjunto de 154 estudos, revisado pelo psicólogo americano Brad Bushman e publicado na revista Clinical Psychology Review, concluiu que expressar tal sentimento tende a atiçá-­lo. Isso porque a descarga física envolvida pode manter o organismo em estado de agitação, especialmente quando a pessoa continua remoendo o que a irritou. A atividade nas salas de raiva tende a produzir uma impressão imediata de alívio, mas não significa que seja terapêutica, disse Bushman a VEJA. Meditação, relaxamento e, claro, terapia tem mais resultado. Isso não quer dizer que é preciso represar a emoção. A questão é entender a raiva e não obedecer a todos os impulsos que ela desperta, tentando chegar à raiz do problema, ensina a neurocientista Elaine Santo. Para quem parte para o quebra-quebra, portanto, é bom saber: ali é só começo.

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Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019

 

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Fonte: veja.abril.com.br

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