Pular para o conteúdo
No ar
Ao vivo agora 3CLIMAS CULTURA RÁDIO JORNAL TV
Tocando agora 3CLIMAS CULTURA ao vivo
Fale no WhatsApp

Câncer de bexiga: combinação de medicamentos reduz em 49% risco de morte em estágio avançado

Resultados de fase 3 mostram ganhos de sobrevida com durvalumabe e enfortumabe vedotina em pacientes que não podem receber quimioterapia convencional

MADRI – Uma combinação de medicamentos administrados antes e depois da cirurgia reduziu o risco de recorrência da doença, progressão ou morte em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo, um tipo grave de tumor que atinge a camada muscular da bexiga.

Os resultados do estudo de fase 3 chamado “VOLGA” foram apresentados pelo pesquisador Thomas Powles durante o congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madrid.

O estudo avaliou 695 pacientes com o tumor que não podiam receber ou reagiram mal à quimioterapia à base de cisplatina, um dos medicamentos tradicionalmente utilizados no tratamento desse tipo de câncer.

Como nesses casos a doença já atingiu a camada muscular da parede da bexiga, a cirurgia para remover o órgão geralmente é indicada. Mesmo após a operação, porém, ainda existe risco de o câncer voltar.

Segundo o oncologista clínico geniturinário Fabio Schutz, do Hospital Beneficência Portuguesa, que acompanhou a apresentação do estudo no congresso, a quimioterapia antes da cirurgia era uma estratégia tradicional para reduzir esse risco.

Continua após a publicidade

O problema é que alguns pacientes não têm condições clínicas de receber a quimioterapia com cisplatina, o que torna necessárias outras opções de tratamento. O VOLGA vem adicionar a esse cenário. É um estudo importante, contextualiza.

Como o estudo foi feito

O estudo investigou diferentes medicamentos que atuam de maneiras diferentes no combate ao câncer.

O durvalumabe é uma imunoterapia que bloqueia a proteína PD-L1, utilizada por algumas células tumorais para escapar das defesas do organismo. Ao bloquear essa proteína, o medicamento ajuda o sistema imunológico a reconhecer e combater o câncer.

Continua após a publicidade

Já o enfortumabe vedotina é um conjugado anticorpo-fármaco, uma espécie de veículo que direciona uma substância capaz de destruir células cancerosas até o tumor. Ele reconhece a proteína nectina-4, presente em muitas células do câncer urotelial, e libera nelas o agente que provoca sua morte.

O tremelimumabe também é uma imunoterapia, mas atua sobre a proteína CTLA-4, envolvida no controle da resposta imunológica. Sua inclusão no estudo buscou avaliar se estimular o sistema imunológico por outro mecanismo poderia ampliar os benefícios do tratamento.

Schutz explica que o enfortumabe vedotina já vinha sendo utilizado no tratamento do câncer de bexiga avançado e que estudos anteriores também investigaram sua combinação com pembrolizumabe em pacientes com doença localizada, antes e depois da cirurgia.

Continua após a publicidade

Nesse contexto, o VOLGA avaliou uma estratégia diferente: três ciclos de durvalumabe associado a enfortumabe vedotina antes da cirurgia, seguidos apenas de durvalumabe após o procedimento.

Os 695 participantes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos:

  • Durvalumabe + enfortumabe vedotina: três ciclos da combinação antes da cirurgia, seguidos de durvalumabe após o procedimento;
  • Durvalumabe + tremelimumabe + enfortumabe vedotina (EV): combinação tripla antes da cirurgia, seguida de tratamento com durvalumabe e tremelimumabe após o procedimento;
  • Grupo controle: cirurgia imediata, sem tratamento medicamentoso antes da operação, seguida de observação ou tratamento local aprovado.
Continua após a publicidade

A cirurgia, chamada cistectomia radical, consiste na remoção da bexiga.

Resultados

O principal resultado foi observado no grupo que recebeu durvalumabe e enfortumabe vedotina.

A combinação reduziu em 49% o risco de eventos relacionados à doença ou de morte em comparação com o grupo controle.

Continua após a publicidade

Esse indicador, chamado sobrevida livre de eventos, considera situações como o retorno do câncer após a cirurgia, a progressão da doença ou a morte. Após dois anos, 64% dos pacientes tratados com a combinação permaneciam livres desses eventos, contra 45% no grupo controle.

O estudo também mostrou benefício na sobrevida global, que mede a proporção de pacientes que continuam vivos, independentemente da causa da morte.

Com durvalumabe e enfortumabe vedotina, houve redução de 42% no risco de morte em comparação com o grupo controle. Em dois anos, a taxa estimada de sobrevida global foi de 78% no grupo tratado com a combinação, contra 69% no grupo controle.

Redução do risco de morte da ordem de 42% é uma melhora significativa no resultado do tratamento, afirma Schutz.

Não foi observada melhora significativa na sobrevida global com a combinação de durvalumabe, tremelimumabe e EV em comparação com o grupo que fez apenas cirurgia. “Essa abordagem não deve seguir em frente”, avalia o especialista.

O oncologista considera que os resultados podem contribuir para uma futura avaliação regulatória da combinação. A eventual aprovação, porém, depende da análise das evidências pelas autoridades competentes.

Preservação da bexiga ainda é um desafio

Apesar dos avanços no tratamento, a possibilidade de evitar a retirada da bexiga ainda não é uma conduta que possa ser recomendada. A cirurgia ainda é considerada necessária, e qualquer estratégia que busque preservar o órgão deve ser avaliada com cautela para não comprometer as chances de cura.

É um desejo de todo mundo, inclusive nós, oncologistas, dos próprios urologistas e também dos pacientes, não perder a bexiga. Mas eu diria que hoje, em 2026, teoricamente a bexiga ainda precisa ser retirada, diz Schutz.

O especialista acredita que os avanços no tratamento, especialmente com imunoterapias como durvalumabe e pembrolizumabe associadas ao enfortumabe vedotina, poderão abrir caminho para estratégias de preservação do órgão. Segundo ele, há estudos em andamento para avaliar essa possibilidade.

Eu acredito que a gente vai caminhar para isso. Tem vários estudos avaliando essa estratégia, diz Schutz. Ele ressalta, porém, que ainda não é possível recomendar a preservação da bexiga com base nesses tratamentos, uma vez que é fundamental não comprometer a possibilidade de cura.

Acho que daqui a dois, três, quatro anos a gente vai estar poupando a bexiga de vários outros pacientes, mas obviamente nunca vai ser 100%, projeta.

*A repórter viajou a convite da GSK.

Publicidade

Fonte: veja.abril.com.br

Compartilhar