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Caminhos da Índia: moda que sai dos ateliês sul-asiáticos conquista o mercado de luxo do Ocidente

Um adeus à visão folclórica do passado recente com releituras contemporâneas

Passarelas de Paris, Milão e Nova York? Que nada. Um dos espaços mais promissores da moda internacional, atalho para lançamentos de badaladas grifes de luxo, é o Diwali, o festival das luzes da Índia. Comemorado por mais de um bilhão de pessoas em todo o país, principalmente por hindus, sikhs, jainistas e alguns budistas, o evento se estende por cinco dias, com ápice na terceira jornada marcada para o dia 8 de novembro. A celebração também movimenta a diáspora ao redor do mundo. É um período comercial pujante, em que comprar roupas, joias e presentes simboliza a prosperidade dos recomeços. Não é à toa que as marcas internacionais enxergam uma oportunidade: a Índia aparece entre os cinco mercados de luxo que mais crescem, com um valor de mercado de cerca de 12 bilhões de dólares até 2030 o setor deve chegar a 90 bilhões de dólares.

O palco festivo atrai beleza e criatividade que brotam em meio a palácios e conquistam outras paragens, em onda mundial. A britânica Jimmy Choo fez uma de suas campanhas tendo como garota-propaganda Gauravi Kumari, a princesa de Jaipur, dentro de elegantes saris de chiffon. A Valentino entrou no movimento com uma edição limitada de uma bolsa decorada com cristais e contas manufaturadas por artesãos locais. Louis Vuitton, Michael Kors, Burberry, Gucci e Ferragamo também investem na colorida e emocionante celebração.

Bolsa de mão Valentino Garavani VLogo Signature pequena, bege, com alça superior preta e fecho dourado em V, cravejada de cristais e pedras em tons de âmbar e transparente
EXCLUSIVO – BolsaValentinode 5000dólares:edição limitada a apenas 25 unidadesDivulgação/.

É um balé ecumênico. Enquanto as marcas ocidentais aproveitam a ocasião para lançar peças especiais, promover festas exclusivas e cortejar clientes endinheirados, os estilistas indianos buscam romper as fronteiras de seu mercado e conquistar relevância internacional. Em julho, Manish Malhotra, conhecido pelos figurinos de Bollywood e pela moda nupcial, estreou na Semana de Alta-Costura de Paris com Anna Wintour na primeira fila. Outro grande designer, Rahul Mishra, faz sucesso com sua abordagem contemporânea de traços locais. Gaurav Gupta aposta em silhuetas esculturais e volumes dramáticos. Sa­byasachi Mukherjee leva sua estética maximalista a uma operação de luxo que inclui parceria em coleção de joias com o Metropolitan Museum of Art, em Nova York. O artesanato indiano deve permanecer profundamente indiano; o que precisa se tornar global é a linguagem por meio da qual o apresentamos, disse Vaishali Shadangule, outra estilista indiana.

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Modelo de pele morena, cabelo escuro preso, posa na passarela rosa com um vestido longo bege cravejado de pérolas e um adereço volumoso em formato de leque nas costas e ombros
OPULÊNCIA -A grife de Manish Malhotra em Paris: a elegância dos bordados e volumesEstrop/Getty Images

Por trás dessa expansão, há financiamento doméstico: a Aditya Birla, potência do varejo local, comprou 51% da Sa­byasachi, por exemplo. Cria-se, portanto, uma indústria que amplia seu repertório e aposta em uma estética menos estridente. A nova geração de criadores do sul da Ásia explora uma linguagem de moda mais minimalista e menos dependente da profusão de adornos e do imaginário de bordados exuberantes e cores intensas associado à produção indiana. É a discrição possível, no avesso do liquidificador psicodélico que os Beatles trouxeram da visita ao retiro de Rishikesh, em 1968, e levaram ao Ocidente a bordo de batas e túnicas floridas. Agora, em grifes como a Raw Mango e a Dhruv Kapoor, a simplicidade dá o tom, de mãos dadas com o cotidiano da Índia, sem o exagero que muitas vezes andou perto do preconceito. Em 2025, a Prada foi acusada de apropriação cultural por apresentar sandálias masculinas que reproduziam as históricas Kolhapuri chappals e custavam cerca de 100 vezes mais. A Dior foi criticada por exibir um casaco de 200000 dólares bordado com a técnica mukaish, sem menção à origem do trabalho.

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Mulher com cabelo escuro preso, vestindo um longo vestido amarelo claro e sandálias cinzas, sentada em uma cadeira de madeira. Ela segura uma pequena bolsa bege com alça dourada e apoia o queixo na mão direita. Ao fundo, um corredor com colunas bege e piso de mármore claro
REAL -A princesa Gauravi Kumari: garota-propaganda da Jimmy Choo@gauravikumari/Instagram

As peças são ainda muito caras (a bolsa da Valentino bate em 5000 dólares, edição limitada a 25 unidades), mas ao menos agora brotou respeito. Há cuidado com as pesquisas e, sobretudo, a adesão de profissionais indianos. A Bulgari acaba de promover uma campanha atrelada ao Diwali, com uma instalação em Jaipur desenvolvida com ceramistas locais. A aproximação evidencia o interesse comercial das grifes pelo país, sim, mas também abre espaço para que seus criadores conquistem reconhecimento além das fronteiras. No caminho das Índias, a ambição agora é vestir o mundo e ditar tendência, sem alvoroço.

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Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019

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Fonte: veja.abril.com.br

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