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Dieta ou milagre?

As tentações calóricas perseguem os que tentam perder peso

Resolvi emagrecer. Não por vaidade. O regime tornou-se inevitável por causa de uma calça que se recusou a fechar. Puxei o zíper, prendi a respiração, fiz uma oração. Nada. A calça tinha tomado uma decisão definitiva: não queria mais conviver comigo. Procurei uma nutricionista. Era tão magra que, de perfil, desaparecia. Expliquei que adoro hambúrgueres, sorvetes, doces e, sobretudo, picanha. Ela ouviu como quem recebe a confissão de um criminoso.

Vamos começar eliminando os excessos.

Achei razoável. Sempre fui contra os excessos dos outros. Recebi um cardápio com sementes, folhas e porções tão pequenas que poderiam ser servidas numa casa de bonecas. E a sobremesa?

Uma pera.

Fiquei ofendido. Pera não é sobremesa. É uma fruta que ainda não encontrou seu destino. No primeiro dia, resisti heroicamente. Comi salada enquanto um amigo atacava um hambúrguer de três andares. O queijo escorria, o bacon estalava, a batata frita exalava um perfume indecente. Olhei para o meu tomate. Ele parecia envergonhado.

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Quer um pedacinho? perguntou meu amigo.

Não. Eu tenho força de vontade gemi.

Cinco minutos depois, pedi para cheirar o sanduíche. Só cheirar. Não há calorias no olfato, pensei. Ele afastou o prato. Há amizades que não sobrevivem a um regime. Mais tarde, passei diante de uma confeitaria. Na vitrine, brigadeiros brilhavam como joias. Um mil-folhas me encarou. Um quindim parecia piscar. Entrei na falsa intenção de apenas tomar água. Saí com uma caixa de doces. Era presente, claro. Para mim.

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Eis uma verdade cruel: quem faz regime não pensa menos em comida. Pensa exclusivamente nela

No domingo, fui a um churrasco. A picanha chegou à mesa com sua capa de gordura dourada. A nutricionista havia recomendado proteína magra. Tirei uma lasquinha. Depois outra. Logo percebi que a carne estava acabando e seria uma grosseria deixar o anfitrião com sobras. Sacrifiquei-me pela educação. A sobremesa era sorvete. Recusei. O anfitrião insistiu. Recusei novamente. Na terceira oferta, aceitei para não criar um incidente diplomático. Pedi duas bolas porque uma, sozinha, parecia triste.

Na segunda-feira, a balança anunciou um quilo a mais. Acusei o aparelho de perseguição. Troquei as pilhas. Mudei de lugar. Subi sem relógio, sem sapatos, quase sem dignidade. O número continuava lá.

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Minha nutricionista perguntou se eu havia seguido a dieta.

Religiosamente respondi.

Não menti exatamente. Havia sido abalado por tentações, pecados, arrependimentos e promessas de conversão. Minha dieta tinha todos os elementos de uma religião. Faltava apenas o milagre.

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Agora, evito passar diante de hamburguerias, sorveterias e churrascarias. O problema é que elas parecem me perseguir. Eis uma verdade cruel: quem faz regime não pensa menos em comida. Pensa exclusivamente nela.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019

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Fonte: veja.abril.com.br

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