Bares mudam forma de comprar bebida um ano após primeira morte por metanol
Há um ano começava uma crise que transformou cachaça, gin e uísque em risco de vida, na maior onda de intoxicação por bebida adulterada já registrada no Brasil. A primeira morte da série de casos de contaminação por metanol foi confirmada no dia 16 de setembro de 2025: a do empresário Ricardo Lopes Mira, de 54 anos. Logo, o país descobriria que não era um caso isolado: até o fim de 2025, foram 890 notificações, 73 casos confirmados e 22 mortes no país. Em São Paulo, o total chega até hoje a 54 casos e 12 mortes. Radharani Dasi Domingos tomou três caipirinhas em um bar na região da Avenida Paulista, comemorando o aniversário de uma amiga. Passou cinco dias em coma induzido, e quinze dias internada, fazendo hemodiálise. Sobreviveu, mas não recuperou a visão. A designer de interiores, que escolhia cores e texturas para as casas dos clientes, hoje enxerga apenas vultos: "Então eu tô nessa situação hoje por, eu acho que, irresponsabilidade do bar e irresponsabilidade do Estado com a gente também, né, que não tem uma fiscalização, que não tem punição. Antigamente a preocupação era sair de casa e alguém levar seu celular, agora você não pode sair pra um aniversário e quase não volto mais." Rafael Anjos Martins comprou uma garrafa de gin num empório perto de casa, na zona sul de São Paulo. No dia seguinte, disse que estava cego. O hospital não tinha leito para hemodiálise, nem o etanol endovenoso usado como antídoto, medicamento que só chegou, de Campinas, mais de 12 horas depois. Rafael morreu no hospital, 53 dias após a madrugada em que foi socorrido pela própria mãe, a enfermeira Helena dos Anjos Martins da Silva. "Não é só São Paulo, o Brasil falhou com a gente, não tinha protocolo, não tinha medicação, não tinha local de referência onde pudesse ser encaminhado com rapidez. A minha dor se transformou em luta, eu continuo lutando pelo meu filho assim como se eu estivesse na beira do leito dele, só que eu não vou ver mais ele, mas eu continuo lutando por ele." Os depoimentos foram dados à CPI do Metanol da Câmara Municipal de São Paulo, uma das tentativas de responsabilizar os culpados. A comissão ouviu vítimas, familiares, donos de bar e representantes do setor de bebidas ao longo de onze meses, e aprovou o relatório final no dia primeiro de setembro. O texto foi encaminhado ao Ministério Público, que informou ainda não ter recebido, ao Procon e às secretarias de Saúde. Na frente policial, foram 46 prisões depois do início da crise, por crimes como falsificação e adulteração de bebidas. Foram apreendidas mais de 150 mil garrafas e 100 mil foram destruídas. As investigações apontam que não havia uma organização criminosa única, e sim grupos que agiam separadamente. Há uma ação de responsabilização em curso contra a dona de uma fábrica clandestina que funcionava numa garagem em São Bernardo do Campo, já condenada a sete anos de prisão. Em abril, o Ministério Público pediu que ela pague mais de um milhão e meio de reais, mas por dano à coletividade, não diretamente às vítimas. Nos bares, a crise deixou uma rotina nova, que inclui comprar de fornecedor homologado pela indústria, exigir nota fiscal e inutilizar a garrafa vazia antes do descarte, para que o vasilhame não volte ao mercado com bebida falsificada. Só na capital, mais de 20 mil pessoas fizeram os treinamentos criados pelo setor. Segundo o líder executivo da Abrasel em São Paulo, Gabriel Pinheiro, a prática pegou: "A maioria dos restaurantes compraram até alguns equipamentos especiais para quebrar com segurança as garrafas. Mas muitos ainda riscam a garrafa de uma maneira ali dentro do restaurante com alguma chave ou uma chave de fenda. Mas as garrafas hoje estão sendo marcadas como utilizadas. Então isso com certeza inutilizou a prática da venda da garrafa vazia que é o principal insumo dos falsificadores." Segundo a entidade, o consumo de destilados levou cerca de seis meses para voltar ao normal. Mas o problema não acabou: só neste ano, São Paulo confirmou mais quatro casos de intoxicação por metanol e duas mortes. O Ministério da Saúde declarou o fim da crise em dezembro. Até lá, distribuiu aos estados 1500 ampolas de fomepizol, o antídoto contra o metanol, e mais de 4800 unidades de etanol farmacêutico, além de manter uma reserva de 2600 ampolas. Três semanas depois de o governo declarar o fim da crise, o metanol voltou a matar. Sete pessoas se intoxicaram e uma morreu na virada do ano, depois de uma festa de noivado no interior da Bahia. As outras seis sobreviveram porque, dessa vez, o antídoto estava disponível. O toxicologista e patologista clínico Alvaro Pulchinelli Jr, presidente do conselho de ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Patologia Clinica e Medicina Laboratorial, lembrou que as primeiras horas após o consumo são cruciais para conter os sintomas e sequelas. Ele avalia que, atualmente, as equipes de saúde têm mais informação sobre como lidar com casos do tipo: "Aqueles quadros de embriaguez pelo etanol, que Têm uma evolução

Há um ano começava uma crise que transformou cachaça, gin e uísque em risco de vida, na maior onda de intoxicação por bebida adulterada já registrada no Brasil. A primeira morte da série de casos de contaminação por metanol foi confirmada no dia 16 de setembro de 2025: a do empresário Ricardo Lopes Mira, de 54 anos. Logo, o país descobriria que não era um caso isolado: até o fim de 2025, foram 890 notificações, 73 casos confirmados e 22 mortes no país. Em São Paulo, o total chega até hoje a 54 casos e 12 mortes. Radharani Dasi Domingos tomou três caipirinhas em um bar na região da Avenida Paulista, comemorando o aniversário de uma amiga. Passou cinco dias em coma induzido, e quinze dias internada, fazendo hemodiálise. Sobreviveu, mas não recuperou a visão. A designer de interiores, que escolhia cores e texturas para as casas dos clientes, hoje enxerga apenas vultos: "Então eu tô nessa situação hoje por, eu acho que, irresponsabilidade do bar e irresponsabilidade do Estado com a gente também, né, que não tem uma fiscalização, que não tem punição. Antigamente a preocupação era sair de casa e alguém levar seu celular, agora você não pode sair pra um aniversário e quase não volto mais." Rafael Anjos Martins comprou uma garrafa de gin num empório perto de casa, na zona sul de São Paulo. No dia seguinte, disse que estava cego. O hospital não tinha leito para hemodiálise, nem o etanol endovenoso usado como antídoto, medicamento que só chegou, de Campinas, mais de 12 horas depois. Rafael morreu no hospital, 53 dias após a madrugada em que foi socorrido pela própria mãe, a enfermeira Helena dos Anjos Martins da Silva. "Não é só São Paulo, o Brasil falhou com a gente, não tinha protocolo, não tinha medicação, não tinha local de referência onde pudesse ser encaminhado com rapidez. A minha dor se transformou em luta, eu continuo lutando pelo meu filho assim como se eu estivesse na beira do leito dele, só que eu não vou ver mais ele, mas eu continuo lutando por ele." Os depoimentos foram dados à CPI do Metanol da Câmara Municipal de São Paulo, uma das tentativas de responsabilizar os culpados. A comissão ouviu vítimas, familiares, donos de bar e representantes do setor de bebidas ao longo de onze meses, e aprovou o relatório final no dia primeiro de setembro. O texto foi encaminhado ao Ministério Público, que informou ainda não ter recebido, ao Procon e às secretarias de Saúde. Na frente policial, foram 46 prisões depois do início da crise, por crimes como falsificação e adulteração de bebidas. Foram apreendidas mais de 150 mil garrafas e 100 mil foram destruídas. As investigações apontam que não havia uma organização criminosa única, e sim grupos que agiam separadamente. Há uma ação de responsabilização em curso contra a dona de uma fábrica clandestina que funcionava numa garagem em São Bernardo do Campo, já condenada a sete anos de prisão. Em abril, o Ministério Público pediu que ela pague mais de um milhão e meio de reais, mas por dano à coletividade, não diretamente às vítimas. Nos bares, a crise deixou uma rotina nova, que inclui comprar de fornecedor homologado pela indústria, exigir nota fiscal e inutilizar a garrafa vazia antes do descarte, para que o vasilhame não volte ao mercado com bebida falsificada. Só na capital, mais de 20 mil pessoas fizeram os treinamentos criados pelo setor. Segundo o líder executivo da Abrasel em São Paulo, Gabriel Pinheiro, a prática pegou: "A maioria dos restaurantes compraram até alguns equipamentos especiais para quebrar com segurança as garrafas. Mas muitos ainda riscam a garrafa de uma maneira ali dentro do restaurante com alguma chave ou uma chave de fenda. Mas as garrafas hoje estão sendo marcadas como utilizadas. Então isso com certeza inutilizou a prática da venda da garrafa vazia que é o principal insumo dos falsificadores." Segundo a entidade, o consumo de destilados levou cerca de seis meses para voltar ao normal. Mas o problema não acabou: só neste ano, São Paulo confirmou mais quatro casos de intoxicação por metanol e duas mortes. O Ministério da Saúde declarou o fim da crise em dezembro. Até lá, distribuiu aos estados 1500 ampolas de fomepizol, o antídoto contra o metanol, e mais de 4800 unidades de etanol farmacêutico, além de manter uma reserva de 2600 ampolas. Três semanas depois de o governo declarar o fim da crise, o metanol voltou a matar. Sete pessoas se intoxicaram e uma morreu na virada do ano, depois de uma festa de noivado no interior da Bahia. As outras seis sobreviveram porque, dessa vez, o antídoto estava disponível. O toxicologista e patologista clínico Alvaro Pulchinelli Jr, presidente do conselho de ex-presidentes da Sociedade Brasileira de Patologia Clinica e Medicina Laboratorial, lembrou que as primeiras horas após o consumo são cruciais para conter os sintomas e sequelas. Ele avalia que, atualmente, as equipes de saúde têm mais informação sobre como lidar com casos do tipo: "Aqueles quadros de embriaguez pelo etanol, que Têm uma evolução na maior parte das vezes benigna, atualmente sempre se desconfia que haja intoxicação por metanol. E a equipe vai atrás de informações mais consistentes, se a pessoa consome bebida com frequência, qual o local que ela consumiu e pesquisar sintomas mais específicos, como alterações visuais e da frequência cardíaca, frequência respiratória, que indicam acidose causada pela metabolização do metanol." Em outubro do ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto para transformar falsificação de bebidas em crime hediondo, prevendo pena de até quinze anos em caso de morte. O texto segue no Senado, sem data para ser votado.
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