Restrições de velocidade interrompem missões com drones e dificultam logística militar; episódio ocorre em meio à pressão de Trump sobre Kiev
A Ucrânia acusou nesta quarta-feira, 14, a SpaceX, empresa de Elon Musk, de impor restrições ao Starlink que prejudicaram operações militares com drones, interromperam missões e dificultaram a logística na linha de frente. Segundo autoridades ucranianas, a mudança foi implementada sem aviso prévio e afetou um sistema essencial para as comunicações e a coordenação das tropas desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022.
Segundo Serhiy Beskrestnov, assessor do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a empresa passou a limitar o funcionamento dos terminais da versão militar do serviço, o Starshield, quando os equipamentos estão em movimento a velocidades superiores a 160 quilômetros por hora. Nossas forças de defesa não receberam nenhum aviso sobre essa limitação, e isso levou à interrupção de várias missões, escreveu o assessor no Telegram.
O 7º Corpo de Reação Rápida das Forças Armadas ucranianas também relatou falhas de conexão durante voos de drones a velocidades entre 110 e 120 quilômetros por hora. Segundo a unidade, as interrupções duraram de 10 a 20 segundos, dificultando o controle dos equipamentos e levando ao cancelamento de operações. Fontes do Ministério da Defesa afirmaram que as restrições também afetam drones interceptadores e de médio alcance, além de comprometer a logística militar, o reconhecimento e a retransmissão de sinais.
Tecnologia vital
O sistema Starlink tornou-se uma ferramenta fundamental para as forças ucranianas desde fevereiro de 2022. A rede de satélites permite manter comunicações em áreas atingidas pela guerra, coordenar tropas e controlar drones usados em missões de ataque, reconhecimento e logística. A capacidade de manter conexões em um ambiente sujeito à interferência eletrônica também contribuiu para sua importância no conflito.
A dependência de uma infraestrutura privada, porém, deixa parte das operações militares vulnerável a mudanças no serviço. Diante das falhas, o Ministério da Defesa ucraniano começou a reunir informações das unidades afetadas e a avaliar alternativas de comunicação. Até a tarde desta quarta-feira, Kiev mantinha conversas com a SpaceX, autoridades americanas e parceiros da Otan para tentar contornar o problema. A empresa não havia divulgado uma explicação pública para as restrições.
Pressão de Trump
O episódio ocorre em meio ao agravamento das tensões entre Kiev e Washington. Nos últimos dias, o presidente americano, Donald Trump, anunciou um acordo envolvendo o fornecimento de diesel russo aos Estados Unidos e suspendeu temporariamente restrições relacionadas às exportações do combustível. As medidas despertaram preocupação na Ucrânia, que teme um enfraquecimento da pressão econômica sobre o governo de Vladimir Putin. Trump também pressionou Kiev a interromper os ataques contra refinarias russas, alvos importantes para a infraestrutura energética e o financiamento da guerra de Moscou.
O desgaste aumentou após Trump afirmar, no último final de semana, que a Ucrânia deveria substituir Zelensky. As declarações reforçaram as incertezas sobre o apoio americano a Kiev, que também se intensificaram depois de ataques russos com mísseis balísticos contra a capital ucraniana. Autoridades do país disseram não ter recebido os alertas prévios no tempo esperado. Trump negou que os Estados Unidos tivessem interrompido o compartilhamento de informações de inteligência, e não havia uma explicação conclusiva para a ausência dos avisos.
A restrição ao Starlink também provocou reação na Europa. O ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosaw Sikorski, questionou Musk publicamente na rede social X, em referência ao papel da empresa no conflito.
Ei, Elon Musk, grandão, você está fazendo política com seus produtos de novo?, escreveu o chanceler. Como seus clientes europeus, estamos de olho em vocês. A Polônia financia assinaturas do Starlink utilizadas pela Ucrânia.
Fonte: veja.abril.com.br