Apesar de ter autorizado a entrada do senador no país, governo americano evita endossar contestação à vitória de Lula e tenta não agravar crise com Brasília
O governo de Donald Trump não pretende apoiar a alegação do senador Flávio Bolsonaro (PL) de que seria o líder legítimo do Brasil, apesar de ter ajudado o parlamentar e sua família a entrar nos Estados Unidos após a derrota na eleição presidencial. A informação foi divulgada nesta sexta-feira, 30, pela agência Reuters, com base em relatos de uma autoridade americana e de outra pessoa a par do assunto, que falaram sob condição de anonimato.
Apesar de o New York Times ter noticiado que Trump e integrantes de sua equipe ajudaram Flávio Bolsonaro a deixar o Brasil, o presidente americano não tem planos, neste momento, de respaldar as ambições políticas do senador, segundo fontes ouvidas pela Reuters. A posição, que ainda pode mudar, indica uma tentativa de evitar uma nova crise diplomática com o Brasil, depois de meses de tensão entre os dois governos.
O presidente americano questionou a condução da eleição brasileira, mas também afirmou que não havia apoiado nenhum dos candidatos e que mantém uma boa relação com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito por uma diferença de 3,5 pontos percentuais.
Na segunda-feira, Trump disse a jornalistas que a votação havia deixado uma péssima impressão e parecia manipulada. Na mesma ocasião, declarou: Gosto do Lula, me dou muito bem com ele. O presidente americano também ressaltou que não havia endossado a candidatura de Flávio durante a campanha.
Rota de fuga
A saída de Flávio do Brasil ocorreu após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a entrega dos passaportes do senador a pedido da Polícia Federal. Ele é investigado por suspeitas de participação em dois esquemas de lavagem de dinheiro e nega irregularidades.
A viagem foi articulada às pressas. Flávio, a mulher e as duas filhas atravessaram uma ponte em direção ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira, 27. Cerca de 40 minutos depois, embarcaram em um avião fretado com destino a Miami, nos Estados Unidos, com escala em Guayaquil, no Equador.
Durante o trajeto, o senador manteve contato com autoridades americanas para tratar de sua saída do Brasil, segundo uma das fontes ouvidas pela agência. Jason Miller, assessor de Trump próximo à família Bolsonaro, teria ajudado a organizar o voo a partir da Argentina. Já o secretário de Estado americano, Marco Rubio, recomendou ao presidente que autorizasse a entrada de Flávio e de seus familiares no país.
Autoridades do Departamento de Estado discutiram com funcionários do Departamento de Segurança Interna qual seria a melhor forma legal de permitir a entrada da família. Ao final, os quatro receberam parole humanitária, uma autorização temporária concedida em situações de urgência humanitária ou de interesse público relevante.
Trump evita novo atrito com Lula
A relação entre Brasil e Estados Unidos já atravessava um período de tensão antes da eleição. No ano passado, Washington impôs sanções a autoridades brasileiras, incluindo o ministro Alexandre de Moraes, em meio às críticas do governo Trump à atuação do Judiciário no processo contra Jair Bolsonaro. As medidas foram suspensas posteriormente, após uma aproximação entre Trump e Lula durante a Assembleia Geral da ONU.
Durante a campanha presidencial, o governo brasileiro também criticou o que considerou tentativas de autoridades americanas de favorecer a candidatura de Flávio. Na semana passada, a Reuters revelou que dois funcionários conservadores do Departamento de Estado defenderam medidas contra o Brasil com o objetivo de enfraquecer Lula e beneficiar a família Bolsonaro.
Apesar desse histórico, Trump não endossou publicamente a candidatura do senador. Segundo a agência, fontes avaliam que o presidente americano pode ter evitado fazê-lo por razões estratégicas: tentativas anteriores de impulsionar Flávio acabaram favorecendo Lula, que usou as manifestações de apoio americano para acusar Washington de interferência nos assuntos internos do Brasil.
Saída enfraquece oposição
A decisão de Flávio de deixar o país também pode comprometer sua posição na política brasileira. Uma terceira autoridade americana ouvida pela Reuters afirmou que o senador perdeu capital político ao entrar em uma espécie de autoexílio. Parte dos conservadores que esperava vê-lo à frente da oposição nos próximos anos criticou sua saída.
A viagem também ocorre em um momento de fragilidade para a família Bolsonaro. Após perder a eleição presidencial de 2022 para Lula, Jair Bolsonaro deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos. Ele retornou meses depois e acabou condenado por tentativa de golpe de Estado. As investigações que atingiram o ex-presidente também alcançaram outros integrantes da família, incluindo Flávio.
O senador mantém atualmente o mandato e a imunidade parlamentar, mas deve perder essa proteção no início do próximo ano, quando deixar o cargo. A investigação por suspeita de lavagem de dinheiro, que motivou o pedido de apreensão de seu passaporte, segue em andamento.
A saída do filho de Jair Bolsonaro deixa a direita brasileira sem um nome evidente para liderar a oposição a Lula, que se prepara para iniciar um quarto mandato presidencial. Para o governo americano, o episódio cria um dilema: embora tenha permitido a entrada do senador nos Estados Unidos, um apoio explícito à sua reivindicação de liderança poderia ampliar o desgaste com Brasília.
Fonte: veja.abril.com.br