Cientista político analisa as mudanças de posição dos presidenciáveis em temas sensíveis e o que elas representam na reta final do segundo turno
A disputa acirrada pela Presidência da República tem levado Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) a rever posições sobre temas que, historicamente, dividem seus campos políticos. Enquanto o senador passou a apoiar o fim da escala de trabalho 6×1, proposta que vinha criticando, o presidente defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, contrariando uma bandeira tradicional do PT. Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, os movimentos estão diretamente relacionados à necessidade de conquistar votos em uma eleição marcada pelo empate técnico. A análise foi feita durante entrevista ao programa VEJA em Foco, apresentado por Marcela Rahal. (este texto é um resumo do vídeo acima)
As mudanças ocorrem a nove dias do segundo turno, em um cenário no qual pequenas variações podem ser decisivas. Pesquisa CNT divulgada nesta sexta-feira mostra Flávio Bolsonaro com 46,8% das intenções de voto, contra 45,9% de Lula. Como a diferença está dentro da margem de erro, os candidatos permanecem tecnicamente empatados. Na avaliação de Prando, a proximidade entre os adversários ajuda a explicar a disposição de ambos para adotar posições capazes de ampliar seu alcance eleitoral.
Por que Flávio Bolsonaro passou a apoiar o fim da escala 6×1?
A primeira mudança destacada pelo cientista político envolve a proposta de redução da jornada de trabalho, promulgada pelo Congresso nesta sexta-feira, 15. Apesar de ter criticado anteriormente o fim da escala 6×1, Flávio Bolsonaro votou a favor da medida. Segundo Prando, tanto o senador quanto seu coordenador de campanha, Rogério Marinho, historicamente defenderam a livre negociação entre empregados e empregadores. A adesão à proposta, portanto, representa uma alteração significativa de posicionamento.
Para o professor, o episódio demonstra a força eleitoral do tema, especialmente entre trabalhadores que poderão ser beneficiados pela ampliação dos dias de descanso sem redução salarial. Prando avalia que o principal ganho político pertence a Lula, que colocou a proposta entre as prioridades de sua campanha. “É um tema de tamanho apelo popular e eleitoral que nós vemos que chega a operar milagres”, afirmou o especialista, ao comentar a decisão de Flávio e de seu partido de apoiar a mudança.
O que explica a mudança de Lula sobre a maioridade penal?
Do lado do presidente, a guinada ocorreu na área da segurança pública. Durante sabatina na TV Globo, na quinta-feira, Lula manifestou apoio à redução da maioridade penal em casos de crimes hediondos. A declaração chamou a atenção por representar um afastamento da posição tradicionalmente defendida pelo PT. Flávio Bolsonaro, por sua vez, reiterou sua defesa de uma redução ainda maior, contemplando a responsabilização como adultos de adolescentes a partir dos 14 anos nesses crimes.
Prando observou que o movimento de Lula se aproxima de uma pauta historicamente associada à direita, assim como o apoio de Flávio ao fim da escala 6×1 representa uma aproximação de uma bandeira defendida pelo campo progressista. “Historicamente, o campo da esquerda progressista, o PT e Lula em particular, nunca foram favoráveis à diminuição da idade penal”, disse. O professor também ironizou a disputa entre os candidatos para defender punições a adolescentes cada vez mais jovens: “Se o Lula concordasse, eles diminuiriam para 12 anos.”
Como as mudanças podem influenciar o resultado da eleição?
Na avaliação do cientista político, as alterações de discurso são tentativas de conquistar eleitores que ainda não definiram seu voto e de mobilizar aqueles que deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno. Prando lembrou que a abstenção superou 21%, o equivalente a cerca de 33 milhões de eleitores, segundo os números citados durante o programa. Para ele, esse contingente representa uma oportunidade para as duas campanhas, especialmente diante da pequena distância apontada pelas pesquisas.
“Essas mudanças de rumo, tanto do Lula quanto do Flávio, são explicadas a partir da presença desse segundo turno”, afirmou Prando. O especialista considera que a disputa permanece aberta e avalia que qualquer movimento capaz de ampliar o apoio a um dos candidatos poderá ter importância no resultado. Embora identifique uma vantagem numérica de Flávio Bolsonaro, o professor ressalta a capacidade de reação de Lula e projeta uma eleição decidida por margem estreita, possivelmente inferior à registrada na disputa presidencial de 2022.
VEJA+IA: Este texto resume um trecho do telejornal VEJA em Foco (confira o vídeo acima). Conteúdo produzido com auxílio de inteligência artificial e supervisão humana.
Fonte: veja.abril.com.br