Fabricante de chips prevê faturamento abaixo das expectativas e enfrenta dificuldades para atender à demanda de IA
A Intel sofreu uma das maiores perdas de valor de mercado de sua história nesta sexta-feira (30), após divulgar projeções financeiras que decepcionaram os investidores.
As ações da fabricante americana de semicondutores chegaram a cair 30% na Bolsa de Nova York, no recuo mais acentuado em uma única sessão desde novembro de 1982.
A desvalorização ocorreu em meio a uma sessão negativa para as empresas de tecnologia, com o Nasdaq registrando perdas próximas de 3% durante o pregão.
A reação dos investidores reflete preocupações com a capacidade da Intel de aproveitar o crescimento da inteligência artificial sem comprometer seus negócios tradicionais.
A companhia espera faturar entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões no quarto trimestre de 2026. O mercado, porém, projetava receita média de US$ 17 bilhões.
Algumas instituições financeiras trabalhavam com previsões superiores a US$ 18 bilhões.
Considerando o ponto médio da estimativa da Intel, de US$ 15,5 bilhões, a diferença em relação à expectativa média chega a US$ 1,5 bilhão, ou 8,8%.
O desempenho reforça os desafios enfrentados pela companhia em um mercado de semicondutores que passa por uma transformação acelerada, impulsionada pela expansão dos centros de dados e pelos investimentos bilionários em inteligência artificial.
Negócio de computadores perde receita
Uma das principais dificuldades da Intel está no mercado de computadores pessoais, historicamente responsável por uma parcela relevante de suas vendas.
A divisão que fornece processadores para notebooks e desktops registrou faturamento de US$ 8,1 bilhões, queda de 5,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O resultado está relacionado à desaceleração da procura por computadores e ao aumento dos custos de componentes eletrônicos, especialmente chips de memória.
Para fabricantes de equipamentos, a alta desses custos pode significar margens menores ou reajustes nos preços cobrados dos consumidores. Em ambos os casos, há risco de redução das encomendas de processadores.
A situação é particularmente delicada para a Intel porque seus produtos são utilizados por fabricantes de computadores em diferentes faixas de preço, desde equipamentos domésticos até máquinas corporativas.
Inteligência artificial cresce, mas expõe gargalos
O cenário é diferente na divisão de centros de dados e inteligência artificial. A unidade registrou receita de US$ 7,32 bilhões, crescimento de 78% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A expansão acompanha a corrida global pela construção de centros de processamento de dados, utilizados por empresas de tecnologia para desenvolver e operar sistemas de inteligência artificial. Esses investimentos elevaram a procura por processadores de alto desempenho e equipamentos destinados a servidores.
Apesar da demanda aquecida, a Intel enfrenta dificuldades para ampliar sua capacidade de fornecimento. A companhia não consegue atender integralmente às encomendas de clientes, o que limita o crescimento das receitas justamente em uma de suas áreas mais promissoras.
O presidente-executivo da Intel, Lip-Bu Tan, reconheceu o problema. Em entrevista, afirmou estar decepcionado com a incapacidade da empresa de atender a todos os pedidos recebidos.
A expansão da inteligência artificial também provoca efeitos sobre outros segmentos da indústria. Fabricantes de memória, como Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology, direcionam parte de sua capacidade produtiva para componentes utilizados em servidores avançados, pressionando a oferta de chips destinados a computadores convencionais.
Com a escassez, os preços das memórias aumentaram, encarecendo notebooks e desktops. O movimento pode reduzir a demanda por computadores pessoais e, consequentemente, pelas linhas tradicionais de processadores da Intel.
Tan alertou que a situação poderá se agravar em 2027. Segundo o executivo, o encarecimento das memórias representa um desafio para toda a indústria, e não apenas para sua companhia.
O resultado é um paradoxo para a fabricante americana: enquanto a inteligência artificial impulsiona as vendas de processadores para servidores, a mesma transformação tecnológica contribui para elevar os custos e enfraquecer o mercado de computadores pessoais.
Para a Intel, o desafio será superar as restrições de produção e fornecimento sem perder espaço em seus negócios tradicionais. A capacidade de equilibrar essas duas frentes será determinante para recuperar a confiança dos investidores após a forte queda das ações.
Fonte: veja.abril.com.br