Especialistas destacam divergências dentro do banco central americano, pressão dos preços do petróleo e incertezas sobre próximos passos
O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) manteve nesta quarta-feira, 28, a taxa básica de juros no intervalo entre 3,75% e 4% ao ano, em linha com as expectativas do mercado. Apesar da ausência de surpresas na decisão, analistas apontam que a inflação persistente, as tensões geopolíticas e a resiliência da atividade econômica americana devem continuar condicionando os próximos passos da política monetária.
A decisão não foi unânime: dez integrantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) votaram pela manutenção dos juros, enquanto dois defenderam uma elevação de 0,25 ponto percentual. Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, a divergência indica que parte dos dirigentes ainda considera necessário apertar a política monetária. Trata-se de uma pausa tática, e não de uma mudança de rota, diz, ao avaliar que o Fed mantém uma postura dependente dos indicadores econômicos e não abandonou a possibilidade de novos aumentos.
A inflação continua no centro das preocupações da autoridade monetária. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) acelerou de 3,4% para 3,7% em 12 meses, enquanto o núcleo do índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), métrica preferida do Fed, está em 3%, um ponto percentual acima da meta de 2%. O economista da Suno destaca que a alta do petróleo, com o Brent acima de 100 dólares por barril, aumenta o risco de repasses para outros preços e reforça a pressão sobre os juros.
Bruna Centeno, economista e sócia da Blue3 Investimentos, também aponta a inflação como um dos principais fatores para a manutenção de uma política monetária restritiva. A inflação continua bastante elevada. Na avaliação da especialista, as incertezas geopolíticas e a escalada dos preços do petróleo adicionam riscos à trajetória dos preços e, consequentemente, à dos juros. Ao mesmo tempo, a atividade econômica americana tem demonstrado resiliência, sustentada principalmente pelo consumo doméstico e por ganhos de produtividade nas empresas.
A comunicação do Fed e os sinais sobre as próximas decisões também estão no radar dos investidores.Agora, a atenção do mercado se volta para a comunicação do Fed após a decisão, diz Fernando Saad Benati, estrategista global da corretora Avenue. Segundo ele, as expectativas para a reunião de dezembro já apontavam uma probabilidade próxima de 80% de uma nova alta dos juros. Benati também observa que, embora o dólar apresente desvalorização marginal no cenário global, a moeda americana sobe em relação ao real, sinalizando um desempenho mais fraco da divisa brasileira no pregão.
Além da trajetória dos juros, outro destaque foi o anúncio sobre mudanças no calendário de reuniões do FOMC. De acordo com Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, uma das reuniões de 2027 não terá decisão sobre juros nem comunicado, enquanto, em 2028, serão duas reuniões nesse formato. A proposta busca ampliar o espaço para deliberações estratégicas e discussões com horizontes mais longos. A medida sugere uma busca por movimentos menos bruscos na política monetária e maior foco no longo prazo, avalia Cavalcanti.
Apesar da manutenção dos juros, os especialistas ressaltam que a decisão não representa o fim do ciclo de aperto monetário. A evolução da inflação, os preços da energia e os próximos dados sobre a economia americana devem orientar as decisões seguintes. O petróleo será uma variável decisiva, e o cenário ainda permite novas elevações dos juros, tanto em 2026 quanto em 2027.
Fonte: veja.abril.com.br