Chamada de Nuvem Alongada de Arsia Mons (AMEC), a formação tem quase o dobro do tamanho do Reino Unido
Na superfície de Marte, uma nuvem formada por gelo aparece com 1.800 quilômetros de extensão, e após alguns meses, some até reaparecer novamente, de forma sazonal. Uma pesquisa recente da Nature Geoscience investigou a fundo a física por trás da nuvem que intriga tanto os cientistas que até carrega o próprio nome: Nuvem Alongada de Arsia Mons (AMEC).
O estudo foi produzido por pesquisadores franceses do Laboratoire de Météorologie Dynamique (em português, Laboratório de Meteorologia Dinâmica), e usou o Mars Express (Expresso de Marte) da Agência Espacial Europeia (ESA), missão não tripulada em que a espaçonave orbita o planeta vermelho e fotografa sua superfície desde 2004.
Em Marte, toda primavera e verão contam com a presença do AMEC, considerada a nuvem mais visualmente impactante do planeta. Ela surge a partir do vulcão de Arsia Mons, a mais de 20 km de altura, e tem um ciclo completo de vida (nascimento, crescimento e morte) todos os dias. O tamanho da nuvem alcança quase o dobro de todo o Reino Unido, e resiste nesse ciclo de nascimento e morte por vários meses.

A AMEC foi descoberta pela primeira vez pelo Mars Express em 2018. Com a análise de anos dos pesquisadores, foi possível identificar que ela é uma nuvem orográfica, muito comum também no planeta Terra. Esse tipo de nuvem se forma quando o vento passa pela topografia complexa de formações geológicas como vulcões e montanhas.
O problema principal com a nuvem exótica está em como ela analisa da Terra. Pesquisadores já tentavam recriar a nuvem em simulações de computador, mas em todos os casos ela falhava em agir da mesma forma que a AMEC em Marte. O trunfo da vitória para a ciência aconteceu quando os cientistas adicionaram nos cálculos conceitos físicos que eram vistos como teóricos e que não aconteceriam na natureza.
Como a nuvem se forma
Na Terra, nuvens similares podem se formar quando o ar úmido resfria e o vapor de água se condensa em gotículas ou cristais de gelo. O processo requer que outras partículas estejam suspensas na atmosfera, para que o vapor se prenda a elas, como sal, pólen, fuligem e poeira. No caso da AMEC, em Marte, os pesquisadores acreditam que a nuvem não se prende a nada para se formar.
O vapor de água se torna, de forma direta, em partículas de gelo na nuvem, sem qualquer intermédio. É quase como se partículas de água se formassem no meio de uma sala, em vez de nas janelas. Chamamos isso de nucleação homogênea, e nunca vimos acontecer dentro de uma atmosfera. É inesperado, explica Jorge Hernández-Bernal, autor principal do estudo.
De acordo com o estudo, a passagem do vento pelo vulcão de Arsia Mons faz com que uma onda levante uma grande quantidade de partículas úmidas de ar quilômetros acima em poucos minutos. Essa movimentação faz com que a atmosfera seja resfriada rapidamente, o que leva a temperatura a cair até 30 graus em apenas dez minutos, e também faz com que os níveis de umidade explodam. A partir disso, o vapor de água congela de forma espontânea e se torna partículas de nuvens, o que forma a AMEC.
Fonte: veja.abril.com.br