Empréstimos a empresas ligadas aos controladores e ajustes no balanço antecederam intervenção; clientes aguardam devolução dos depósitos
O Ueno Bank entrou em processo de resolução no Paraguai depois que uma revisão de suas contas revelou capital insuficiente para sustentar os riscos assumidos pela instituição. A decisão do Banco Central do Paraguai (BCP), tomada na segunda-feira (2) e divulgada na terça-feira (3), ocorreu após o índice de solvência cair para menos da metade do mínimo exigido.
A crise reúne problemas na concessão de empréstimos, operações com empresas ligadas aos controladores e deterioração da disponibilidade de dinheiro para cumprir obrigações. O procedimento de resolução coloca o banco sob atuação do regulador para verificar seu patrimônio, preservar ativos e organizar o tratamento dos depósitos.
Empréstimos a empresas vinculadas acenderam o alerta
A fiscalização começou em junho, quando a supervisão bancária identificou indícios de crédito concedido a empresas relacionadas ao grupo controlador do Ueno. A documentação formal dos tomadores não permitia reconhecer diretamente essas conexões, o que exigiu uma investigação sobre o destino dos recursos.
Operações desse tipo exigem controle porque podem concentrar o risco do banco nos negócios de seus próprios donos. Se essas empresas enfrentam dificuldades para pagar, as perdas atingem a instituição que concedeu os empréstimos e comprometem os recursos que deveriam proteger os depositantes.
A agência de classificação de risco FIX informou que a revisão do regulador revelou operações com empresas vinculadas que não haviam sido comunicadas oportunamente pelo banco, além de fragilidades na qualidade dos ativos e na documentação de determinadas transações. Na terça-feira, a agência rebaixou a classificação nacional do Ueno de AA-py para Dpy.
Revisão das contas expôs insuficiência de capital
As inspeções também identificaram financiamentos elevados em relação à capacidade econômica e financeira demonstrada pelos clientes. Havia dependência de receitas futuras de projetos sem sustentação suficiente para as projeções, além de falhas na avaliação das fontes de pagamento e no acompanhamento dos empréstimos.
Essas deficiências levaram a ajustes de provisões superiores a 1,6 trilhão de guaranis. Provisões são valores reconhecidos contabilmente para cobrir possíveis perdas, como empréstimos que podem não ser pagos. Quando o banco precisa reconhecer perdas maiores, seu resultado e seu patrimônio são afetados.
Após os ajustes, o índice de solvência caiu para 5,56%, conforme documentos do BCP relatados pelo jornal ABC Color. O indicador compara o capital disponível com os riscos dos ativos e serve para avaliar a capacidade de absorver prejuízos.
Falta de liquidez agravou a situação
Além da insuficiência de capital, o banco enfrentou deterioração da liquidez, a disponibilidade de recursos para atender saques, transferências e outras obrigações. A instituição comunicou que não conseguiria recompor um encaje legal de 70 milhões de dólares, reserva obrigatória mantida sob as regras do Banco Central.
Os dois problemas se relacionam, mas são diferentes. A liquidez diz respeito à capacidade de pagar compromissos no prazo. A solvência envolve a existência de capital suficiente para suportar os riscos e as perdas do negócio. No Ueno, a revisão das contas revelou fragilidade patrimonial enquanto a disponibilidade de recursos também se deteriorava.
O que acontece com o dinheiro dos clientes
A garantia de depósitos cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante em cada instituição financeira, equivalentes a 75 salários mínimos mensais paraguaios. O limite considera o conjunto dos depósitos da pessoa ou empresa no banco, e não cada conta separadamente. Para os valores acima da cobertura, a recuperação dependerá dos mecanismos adotados no processo de resolução.
Nesta quinta-feira (5), o BCP anunciou o início do pagamento ao primeiro grupo de clientes. A etapa contempla depositantes com saldo total de até 10 milhões de guaranis, sem dívidas com o Ueno e com conta habilitada em outro banco ou financeira do Paraguai. Os próximos grupos serão informados conforme o andamento do procedimento.
Fonte: veja.abril.com.br