Escritor Ary Neto relata a experiência que quase transformou sua viagem de moto até Cuba em tragédia
Quando meus amigos e eu decidimos ir para Cuba de moto, um dos preparativos obrigatórios foi a vacina contra a febre amarela. Aquela caderneta laranja dava a impressão de que eu estava blindado. Saímos de Foz do Iguaçu rumo ao Pacífico e seguimos para o norte por um trajeto majoritariamente desértico (inóspito até para os mosquitos), até chegarmos ao meio do mundo: Quito. Dali em diante, o verde tropical tomou conta e minha vacina teria que valer.
A travessia da Colômbia para o Panamá só era possível por rota aérea ou marítima. Fomos pelo mar, que era mais barato, mas a embarcação era lenta e colocava em risco nosso objetivo: participar do 8º Congresso Internacional de Educação Superior, em Havana. Numa das ilhas onde ancoramos, caímos na lábia de um indígena que garantiu ser possível seguir de canoa até o continente e cruzar as colinas de Darién até reencontrar a rodovia.
Abandonamos o barco para atravessar a selva com dois guias indígenas. Na primeira hora, ficou claro que era impossível avançar com as motos. Sem ter como voltar, tivemos que abandoná-las. Depois de dois dias andando, fomos nós os abandonados: os guias voltaram e nos deixaram à mercê da mata. Água não faltava, já que seguíamos pela margem do rio, mas ali também morava outro perigo, sobretudo ao entardecer.
Meus braços e pescoço estavam repletos de picadas de mosquito. O cansaço era tanto que não havia energia nem para espantá-los. Não sei qual deles foi o culpado, ou melhor, delas: uma fêmea de Anopheles. Ela pousou, abriu caminho com seus estiletes e sugou meu sangue, liberando uma saliva que impede a coagulação. Foi nessa saliva que veio o parasita da malária, que viajou até meu fígado e ali se instalou.

Um caçador de iguanas nos encontrou dias depois e nos levou até sua aldeia, de onde retomamos a viagem. O perigo parecia ter ficado para trás, assim como as motos. Duas semanas depois, já em Havana, os sintomas começaram: febre e suor como eu nunca tinha sentido.
Mal consegui dormir naquela primeira noite. No dia seguinte eu estava melhor, mas no posterior piorei novamente. Levei um tempo para perceber o padrão: a cada 48 horas, as hemácias se rompiam liberando novos parasitas, e meu sistema imunológico tentava fritá-los. Os calafrios chegavam no fim da tarde e nada aliviava, nem dipirona. Fui a um médico cubano, atencioso, que pediu exames suspeitando de hepatite pelo inchaço do fígado.
Foram três crises em solo cubano; a quarta me pegou em pleno voo o frio da febre se somou ao ar-condicionado da cabine. Pedi um cobertor, depois outro, um comprimido, depois outro, porém só me deram depois que me viram escondido no fundo do avião. Bati os dentes sem controle enquanto alguns passageiros riam, achando que eu estava maluco. Fechei os olhos e fiquei esfregando os braços contra o corpo tentando me aquecer.
Já em São Paulo, a melhora voltou a me enganar. Fui ao hospital do bairro, passei a noite internado e tive alta sem confirmação: podia ser leptospirose, febre amarela, dengue ou malária. Na minha cabeça, era tudo isso ao mesmo tempo. Quando piorei outra vez, fui para a Santa Casa de Santo André. Já na primeira crise assustei a equipe: o corpo tremia sem parar e o termômetro marcou 42 graus. O médico pediu bolsas de gelo do pescoço até as pernas.
Diagnosticar malária fora de áreas endêmicas é um desafio: sem vivência clínica da doença, muitos profissionais não a reconhecem na lâmina. Prostrado por cefaleia, dores musculares e vômitos, vi a infectologista colher sangue da minha orelha para enviar ao núcleo de especialistas do Hospital das Clínicas. Horas depois, ela retornou vibrando com a confirmação. Era malária, do tipo Vivax. Ela começou a despejar os comprimidos em uma bandeja: dez no total. A dose diminuiria dia a dia.
Na manhã seguinte, eu ainda estava abatido, mas já sabia que tinha vencido. Fiquei mais dois dias internado até as plaquetas normalizarem e tive alta. Por seis meses, fui uma vez por mês ao HC colher sangue para verificar se algum parasita tinha se fingido de morto. Nunca voltaram.
Mais de dez anos se passaram e ainda não existe vacina eficiente e acessível contra a malária. Todo ano, mais de meio milhão de pessoas morrem por causa dela. Hoje, diante de qualquer meia dúzia de árvores, meu primeiro reflexo é tomar banho de repelente. Mas Darién, nunca mais, só voltei pra lá em memória, quando escrevi Expresso Havana, o livro fruto dessa travessia.
*Ary Neto em depoimento a Diogo Sponchiato.
Fonte: veja.abril.com.br