Allan Lichtman, PhD por Harvard, teme um presidente 'sem amarras' após perder o Congresso, detalha desafios da oposição e prevê desdobramentos para 2028
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos impuseram uma dura derrota a Donald Trump e alteraram o equilíbrio de forças em Washington. Com a conquista das duas casas do Congresso pelos democratas, o presidente americano perde o controle de uma agenda legislativa que, até então, contava com maioria republicana, e passa a enfrentar uma oposição com poderes ampliados de fiscalização e investigação. O resultado também representa um revés para as pretensões eleitorais do Partido Republicano em 2028, especialmente para o vice-presidente J.D. Vance, um dos nomes mais associados ao trumpismo.
Mas a vitória democrata não significa que Trump tenha perdido as condições de governar: o presidente ainda dispõe de instrumentos importantes para implementar sua agenda, inclusive por meio de decretos e ordens executivas. Para o historiador Allan Lichtman, PhD por Harvard, professor da American University e conhecido por suas previsões eleitorais certeiras, o maior risco agora é que, diante da perspectiva de perder a Casa Branca em dois anos, Trump decida acelerar suas investidas autoritárias. Em entrevista a VEJA, o “oráculo eleitoral” americano analisa o recado das urnas, os desafios da oposição e os possíveis desdobramentos para 2028.
O senhor previu a onda azul que deu aos democratas o controle das duas casas legislativas há meses. O que lhe dava tanta certeza? Quando a aprovação de um presidente está tão baixa quanto a de Donald Trump, o partido dele perde em média 40 cadeiras na Câmara e seis no Senado nas midterms. Isso é muito próximo do resultado que vimos ontem à noite. Toda eleição de meio de mandato é um voto a favor ou contra o desempenho do presidente e do seu governo, e havia quatro grandes problemas para ele. O primeiro é a guerra não declarada e não autorizada no Irã, o conflito mais impopular da história dos Estados Unidos. Em quase todos os outros, inclusive no Iraque e no Vietnã, os americanos se uniram em torno da bandeira no começo. Isso não aconteceu. Do início até agora, a população desaprova esmagadoramente essa guerra mal concebida no Irã. O segundo é a economia e a inflação. Trump pode esbravejar o quanto quiser, mas não consegue apagar o que os americanos estão sentindo na mesa da cozinha, na bomba de gasolina e no supermercado. O terceiro é a ameaça à democracia, e o quarto, a corrupção. Aconteceu algo notável, que nunca tínhamos visto antes: a democracia subiu quase ao topo das preocupações, muito perto da economia, que sempre fica em primeiro lugar. As pessoas perceberam que Trump, que diz posso fazer o que eu quiser como presidente, representa de fato uma ameaça existencial à nossa democracia. Ao mesmo tempo, dois terços dos americanos acreditam que ele usou de forma nefasta o poder da Presidência para enriquecer a si mesmo e à família. Junte esse golpe quádruplo e você tem o que vimos no dia da eleição, com um presidente cuja aprovação está na miserável faixa dos 30%.
Sem o Congresso, qual o poder Trump ainda tem a seu dispor? Muito. Trump não tem agenda legislativa; a única legislação significativa que ele aprovou em dois mandatos foram os grandes cortes de impostos para empresas e para os ricos e o arrocho no vale-alimentação e no Medicaid. Ele governa por proclamações e decretos. Então a grande questão é: Trump vai ser contido por esse resultado e talvez moderar sua tendência autoritária? Ou vai acelerá-la? Ele pode perceber que isso talvez seja um prenúncio de que os republicanos vão perder o poder em 2028 e pensar então vou fazer tudo o que puder agora para impor minhas ideias e minha agenda ao povo americano e continuar enriquecendo a mim e à minha família. Esse é o perigo real, ter um Donald Trump sem amarras nos próximos dois anos. Essa é a grande questão que paira sobre o país e sobre os partidos Democrata e Republicano.
E que poder tem os democratas para lidar com o presidente? Eles precisam decidir se vão usar o poder e as maiorias recém-conquistados para ser ousados e agressivos ao confrontar este governo. Não necessariamente com o impeachment do presidente, mas investigando os arquivos de Jeffrey Epstein, a guerra no Irã, a corrupção, as tarifas. Vão usar o poder no Senado para garantir que Trump nunca mais consiga aprovar indicados perigosos e despreparados ao seu gabinete, como RFK Jr. (Saúde) e Pete Hegseth (Defesa)? Vão garantir que Trump não consiga aprovar juízes vitalícios de extrema direita na Suprema Corte? Há muita coisa em jogo neste momento.
A maior reclamação da população são os preços. O que os democratas podem fazer a esse respeito? Eu gostaria que os democratas tivessem uma varinha mágica para acabar com a guerra tarifária sem precedentes, desnecessária e autoinfligida. O mesmo vale para a guerra no Irã, que só causou morte e destruição e prejudicou a economia mundial e a americana. Eles podem aprovar resoluções, podem aprovar leis, mas Trump continua com o poder de veto e já mostrou que não está nem aí para o que o Congresso faz. Ele vai seguir as próprias inclinações. Mas o grande poder que o Congresso tem, e que eu espero que use, são as investigações. Trump não sente vergonha, mas pode ser constrangido. Isso é algo que o Congresso pode fazer para conter as inclinações dele nas guerras tarifárias e no Irã. E também na imposição da próprias agenda às instituições de ensino, aos museus Smithsonian e a outros memoriais. Há muita coisa que o Congresso precisa fiscalizar.
O que projeta em termos de eleição presidencial em 2028 a partir dessas midterms? Esta eleição claramente é um golpe significativo nas esperanças republicanas para o pleito. Ao desacreditar Trump, você desacredita um candidato como o vice-presidente J.D. Vance, que está muito associado ao trumpismo, assim como todos os favoritos à indicação republicana em 2028. Além disso, uma das chaves da minha análise de previsão das derrota nas eleições presidenciais, para qualquer partido, é a perda de cadeiras nas eleições de meio de mandato. Mas não esperem que o Partido Republicano mude de repente; não vai acontecer. Por que os republicanos sempre cedem a Trump? A explicação convencional é que têm medo dele, mas isso é superficial demais. A explicação mais profunda é que concordam com ele. Trump e os republicanos de hoje são o ponto culminante de cem anos de movimento conservador americano. Eles estão totalmente em sintonia nas duas questões cruciais para os conservadores, que são proteger os negócios — não a livre iniciativa, mas a iniciativa privada — e travar guerras culturais. Não há nenhuma diferença entre Trump e os republicanos do Congresso. Por isso não espero nenhum tipo de reavaliação ideológica por parte dos republicanos. Mas vou apontar uma coisa importante para os democratas: a grande vitória do senador Jon Ossoff na Geórgia. Ele é o meu azarão favorito para ser o candidato democrata em 2028.
Fonte: veja.abril.com.br