Anvisa libera semaglutida oral para obesidade, ampliando o arsenal de tratamento
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta quarta-feira, 4 de novembro, o Wegovy em comprimidos, a semaglutida oral de 25 mg, para adultos com obesidade ou com sobrepeso associado a pelo menos uma doença relacionada ao peso, como hipertensão, pré-diabetes ou apneia do sono. É o primeiro remédio da família dos análogos de GLP-1 em forma de pílula aprovado no país especificamente para tratar a obesidade.
A pergunta que vai dominar os consultórios nas próximas semanas é uma só: afinal, qual é mais potente, o comprimido ou a caneta? A resposta honesta é mais interessante do que um simples placar.
A caneta já tem duas doses aprovadas
Para obesidade, o Wegovy injetável é aplicado uma vez por semana, sob a pele, na dose de manutenção de 2,4 mg. Desde maio deste ano, a Anvisa também autoriza a dose de 7,2 mg, reservada a quem não alcançou resposta adequada com a dose padrão. O comprimido, por sua vez, será tomado todos os dias, com aumento gradual de 1,5 mg para 4 mg, 9 mg e, por fim, 25 mg.
Por que 25 mg no comprimido e só 2,4 mg na caneta? A semaglutida é um peptídeo, uma espécie de pequena proteína, e o estômago é um ambiente hostil para proteínas. Para sobreviver ao ácido e às enzimas, o comprimido carrega uma substância que protege a molécula e ajuda sua absorção ainda no estômago. Mesmo assim, só uma pequena fração chega ao sangue. Daí a dose maior e a exigência do jejum, já que comida e líquidos atrapalham esse processo.
O que dizem os números
Não existe nenhum estudo que tenha colocado comprimido e caneta frente a frente. O que temos são pesquisas separadas, cada uma comparando o remédio com placebo.
No ensaio clínico STEP 1, publicado no New England Journal ofMedicine em 2021, 1.961 adultos usaram a caneta de 2,4 mg por 68 semanas. A perda média de peso foi de 14,9%, contra 2,4% no grupo placebo.
No STEP UP, publicado em 2025 no The Lancet Diabetes & Endocrinology, 1.407 adultos sem diabetes, com peso médio de 113 quilos, foram acompanhados por 72 semanas. Quem usou 7,2 mg perdeu em média 18,7% do peso; quem ficou nos 2,4 mg, 15,6%; o placebo, 3,9%. Entre os que seguiram o tratamento à risca, um em cada três voluntários da dose alta perdeu 25% ou mais do peso.
E os números copm o comprimido? No OASIS 4, também no New England Journal of Medicine, em 2025, 307 adultos tomaram o comprimido de 25 mg ou placebo por 64 semanas. A redução média foi de 13,6%, contra 2,2%. Entre os que tomaram o remédio corretamente, a perda chegou a 16,6%, e cerca de três em cada dez perderam 20% ou mais do peso.
Por que não dá para comparar
Olhando assim, a tentação é montar um ranking: 7,2 mg no topo, depois 2,4 mg, depois o comprimido. Seria um erro. Os estudos tiveram durações diferentes, recrutaram pessoas com perfis diferentes e tamanhos muito distintos: o OASIS 4 teve pouco mais de 300 participantes, contra quase 2 mil do STEP 1.
Um detalhe mostra bem o problema. A mesma caneta de 2,4 mg produziu 14,9% de perda no STEP 1 e 15,6% no STEP UP. Mesmo remédio, mesma dose, resultados diferentes, só porque o estudo era outro. Se isso acontece com o mesmo produto, imagine comparar produtos distintos. Apenas um estudo de comparação direta poderia apontar o mais potente, e ele ainda não existe.
O que se pode dizer é que o comprimido de 25 mg entrega uma perda de peso na mesma faixa da caneta de 2,4 mg. A dose de 7,2 mg alcança números maiores, mas foi pensada para outro momento do tratamento.
Não é briga, é escolha
O dado mais revelador não vem dos ensaios clínicos, e sim das farmácias americanas. O comprimido chegou aos Estados Unidos em janeiro e passou de 3 milhões de receitas em menos de seis meses. Segundo a fabricante, mais de 80% das novas prescrições foram para pessoas que nunca tinham usado um remédio dessa classe.
Ou seja, o comprimido não roubou pacientes da caneta. Ele alcançou gente que, por medo de agulha, desconfiança ou simples preferência, não havia começado tratamento algum. É isso que me interessa como médico. A obesidade é uma doença crônica, e o melhor remédio é aquele que o paciente consegue usar por muito tempo.
O que ainda falta
Antes de correr para a farmácia, alguns cuidados. O Wegovy em comprimidos ainda não está à venda no Brasil e não tem preço, que depende da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). E exige disciplina: deve ser tomado em jejum, com pouca água, pelo menos 30 minutos antes do café da manhã, de outras bebidas ou remédios. Os efeitos colaterais lembram os da caneta, sobretudo náusea e vômitos, em geral leves a moderados e mais comuns no início. No OASIS 4, a náusea atingiu 46,6% de quem tomou o comprimido, contra 18,6% no placebo.
Teremos, portanto, uma injeção semanal e um comprimido diário. Nenhum dos dois é melhor em absoluto. O melhor é o que cabe na rotina, no bolso e na história de cada paciente, sempre com orientação médica.
Fonte: veja.abril.com.br