Autoridades europeias veem possibilidade de mudança na política de Washington, enquanto aliados de Trump criticam o resultado
A vitória do Partido Democrata nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos dividiu as reações de líderes internacionais. Na Europa, autoridades celebraram o resultado e apontaram possíveis mudanças na relação de Washington com temas como meio ambiente, comércio e conflitos internacionais. Já representantes de países alinhados ao governo de Donald Trump adotaram um tom crítico e questionaram os efeitos da nova composição do Congresso.
Com a conquista da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, os democratas passam a ter mais instrumentos para fiscalizar o governo, questionar decisões da Casa Branca e impor obstáculos à agenda do presidente. O resultado representa um revés político para Trump nos dois últimos anos de seu mandato.
Europeus veem sinal de mudança
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, interpretou o resultado como uma rejeição dos eleitores americanos às políticas de Trump. Em publicação na rede social X, o premiê afirmou que a votação foi uma resposta ao que classificou como medidas de empobrecimento da população, preconceito, sexismo e negação das mudanças climáticas.
Sánchez também relacionou o resultado a movimentos políticos em outros países. Aconteceu no Brasil. Acaba de acontecer nos Estados Unidos. E acontecerá em breve na Espanha, escreveu.
Na Noruega, o primeiro-ministro Jonas Gahr Støre avaliou que a vitória democrata pode abrir espaço para vozes mais próximas das posições de seu governo em questões ambientais e diplomáticas. Segundo ele, o novo cenário político americano pode favorecer o diálogo em áreas como política externa e ajuda ao desenvolvimento.
Agora estão surgindo vozes na política americana que estão mais próximas de nós do que o presidente e seu governo estiveram, por exemplo, em questões climáticas e ambientais, e também em política externa e política de ajuda ao desenvolvimento, afirmou à Reuters.
No Parlamento Europeu, o resultado também foi recebido como um revés para Trump. Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional da instituição, classificou a vitória democrata como um golpe devastador para o presidente americano e uma grande vitória para a democracia.
O parlamentar, porém, ponderou que o enfraquecimento político de Trump não necessariamente tornará sua atuação mais previsível. Na avaliação de Lange, o presidente pode reagir à perda de força no Congresso com uma postura mais agressiva. Ele também ressaltou que uma maior influência democrata pode facilitar o diálogo com a União Europeia, mas não deve encerrar as divergências comerciais entre os dois lados.
O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, também apontou possíveis consequências para o cenário internacional. Para ele, a nova configuração política em Washington pode marcar o início de uma fase diferente nas relações entre os países.
+ O que disse o Irã sobre a derrota de Trump nas midterms
No Irã, a vitória democrata foi recebida como um sinal de rejeição à guerra iniciada por Donald Trump contra o país. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que os eleitores americanos disseram não à guerra e que Teerã endossava a mensagem. Ele também advertiu Washington contra ignorar a vontade popular e retomar os ataques.
O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, por sua vez, ponderou que a mudança na composição do Congresso não deve ser interpretada como uma alteração na postura americana em relação ao Irã. Segundo ele, esperar uma mudança profunda na política dos Estados Unidos por causa da vitória democrata seria um erro.
Aliados de Trump criticam resultado
Entre os representantes de governos mais próximos de Trump, as declarações foram marcadas pela preocupação com os rumos da política americana. O vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, criticou a postura dos democratas em relação a Moscou, mas afirmou que o resultado eleitoral não deve alterar a condução da política externa russa.
Nossa posição firme e consistente em relação à Ucrânia assim como nossa política externa em geral não se baseia em considerações de curto prazo e, naturalmente, não depende das oscilações do cenário político em outros países. Continuaremos nosso trabalho de acordo com as diretrizes do presidente da Federação Russa, declarou.
Na Itália, Matteo Salvini, líder do partido de direita Liga e integrante da coalizão governista, adotou um tom mais cauteloso. Ele disse que o resultado deve ser respeitado e relacionou o desempenho eleitoral às tensões internacionais e ao aumento do custo de vida nos Estados Unidos. A esperança é que essa votação possa representar uma aceleração rumo ao fim dos conflitos e ao retorno da paz, afirmou.
Fonte: veja.abril.com.br