Iniciativa reúne pacientes e especialistas para conscientizar brasileiros sobre o glioma, cujo tratamento ganhou avanços recentemente
Em 2024, trocando mensagens no WhatsApp, o ator mineiro Pablo Sanábio começou a sentir a visão turva. Achou que estivesse com uma crise de ansiedade. Estranhou, mas o episódio passou.
No dia seguinte, foi ao mercado e, do nada, já não lembrava o que fora fazer ali. Outros lapsos de memória vieram: onde era a escola da filha? Como se pedia um Uber?
Preocupado, Pablo foi tocando a vida até que teve uma convulsão. A partir daí tudo mudou.
Internado e submetido a exames de imagem, ele viria a saber, entre idas e vindas ao hospital, que estava com um tumor cerebral. Passou por uma cirurgia, que conseguiu extirpar a lesão com uma margem de segurança e, depois da biópsia do tecido, descobriu que enfrentava um glioma.

Glioma é um tipo de câncer que surge a partir de certas células do sistema nervoso. Quando aparecem os sintomas, como alterações visuais, perda de memória ou convulsões, em geral a doença já está ganhando terreno.
Pablo teve de realizar sessões de químio e radioterapia. Mas nunca deixou a bola cair. “Na sala da radioterapia, eu buscava visualizar a vida que eu queria ter”, relata. “Me via viajando com a minha filha… Era um exercício de esperança que eu construía diariamente.”
Encerrados os ciclos de tratamento, em maio de 2025 o ator entrou felizmente em remissão. De lá pra cá, continua fazendo exames para se certificar de que tudo está bem e definiu uma nova meta para sua vida: falar sobre glioma.
Não por acaso, Pablo é um dos embaixadores da campanha “Isso é um glioma”, lançada pelo laboratório francês Servier, que está completando 50 anos no Brasil.
Por dentro do glioma
Ele é o principal tipo de tumor primário do cérebro e o tumor sólido mais comum entre crianças e adolescentes, embora também apareça em adultos, como Pablo Sanábio, hoje com 44 anos. Estima-se que a prevalência gire em torno de 4,5 casos a cada 100 000 habitantes.
A neuro-oncologista Caroline Chaul, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, explica que a doença é dividida em subtipos de acordo com seu grau de agressividade e velocidade de crescimento. “Mas, a partir de 2009, passamos a dispor de uma nova classificação, que considera também se o tumor tem ou não uma mutação no gene IDH”, conta.
Não é um mero detalhe técnico. “Cerca de 40% dos pacientes apresentam essa mutação, e essa informação pode mudar o tratamento, que agora tem medicamentos destinados a esse alvo”, diz a médica. “Hoje, pacientes com glioma de baixo grau e IDH mutado podem ter uma sobrevida de décadas.”
Os sintomas da doença, nem sempre claros e evidentes, dependem do local da lesão no cérebro. “Convulsões, alterações cognitivas, dificuldades na fala ou na coordenação motora, dores de cabeça intensas e episódios de náusea e vômito são os principais”, descreve a especialista.
Como são sinais inespecíficos, eles acendem o sinal de alerta para procurar o médico, um dos motes da campanha de conscientização “Isso é um glioma”.
A nova campanha
O movimento encabeçado pela Servier, que completou 70 anos de estrada pelo mundo e decidiu apostar ainda mais na inovação terapêutica, tem o lema: “O primeiro passo é enxergar. O segundo é se informar”.
Ele busca, portanto, conscientizar tanto a classe médica como a população em geral sobre uma doença que, embora rara, tem bastante impacto na qualidade de vida e no círculo familiar. Como em outros tipos de câncer, em geral, quanto antes se faz o diagnóstico, melhores as perspectivas.
A detecção do glioma é feita por meio de exames de imagem do crânio, como ressonância magnética, e uma biópsia de uma amostra do tecido cerebral, que permitirá identificar o perfil molecular e genético do tumor – o que pode mudar a conduta terapêutica.
O tratamento engloba cirurgia, radioterapia, quimioterapia, monitoramento ativo e, mais recentemente, as terapias-alvo. A partir de 2024, a Servier trouxe ao mercado os primeiros medicamentos que focam na mutação de IDH – como um míssil teleguiado, a droga, de uso oral, mira especificamente as células cancerosas, poupando as saudáveis.
“A ideia do tratamento é maximizar a expectativa e a qualidade de vida do paciente”, ressalta Chaul.
Desafios do tratamento
Para entender a jornada de quem recebe o diagnóstico de um glioma, a Servier se juntou ao Instituto Oncoguia para realizar uma pesquisa com 23 pacientes brasileiros de diferentes regiões do país, entrevistados de forma online por psicólogas.
O levantamento mostra que 20% deles levaram mais de um ano para receber o diagnóstico, 45% deles entre três meses e um ano e 65% mais de 90 dias.
“Em geral, eles descobriram a doença após uma convulsão e depois de passar por três médicos diferentes”, conta Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia e coordenadora do estudo.
As principais barreiras para a detecção do quadro apontadas pela investigação foram o desconhecimento dos profissionais de saúde e a dificuldade de acesso a exames – algo mais evidente no âmbito da rede pública.
“Do diagnóstico ao tratamento, é uma jornada marcada por angústia e incerteza”, diz Holtz.
Um dado que chamou a atenção é que 40% dos pacientes saíram da consulta médica após a identificação do problema sem saber se o glioma era um câncer ou não.
A maioria dos respondentes foi submetida a cirurgias com sessões posteriores de químio e/ou radioterapia, mas 43% deles ou não realizaram o teste para identificação da mutação no gene IDH ou não souberam responder se haviam feito o exame que ajuda a direcionar a terapia – no Brasil, ele é fornecido gratuitamente pelo programa IDHentifique, mantido pela Servier.
A sobrecarga emocional foi outra constante observada na pesquisa: 70% dos pacientes relatam ansiedade sobre o futuro e medo de progressão ou volta da doença. Para oito em cada dez, a família é o principal suporte e houve aumento nos gastos da casa devido ao tratamento.
“É uma doença que gera o que chamamos de toxicidade financeira e demanda apoio psicológico”, destaca Holtz. “Nosso estudo mostra uma comunicação insuficiente sobre o tema, condutas médicas divergentes e a carência de um diálogo e de uma conversa sobre futuro com os pacientes”, acrescenta a líder do Oncoguia.
É diante desse cenário que se insurge o movimento “Isso é um glioma”. “Nossa companhia, que é mantida por uma fundação sem fins lucrativos, está empenhada em promover a inovação terapêutica e fazer a diferença para os pacientes com câncer”, diz Matthieu Mendil, diretor-geral da Servier no Brasil.
A campanha, que conta com um site próprio e conteúdos disseminados pelas redes sociais, se ancora na fala e nas imagens de pacientes e especialistas que convivem com a doença. Eles inclusive foram retratados em um belo ensaio visual conduzido por Gustavo Gaiote, fotógrafo que também superou o diagnóstico de um glioma.
O objetivo, calcado em ciência e comprometimento social, é que mais brasileiros possam vencer esse desafio com os recursos médicos, a energia e o bom humor do ator Pablo Sanávio.

Fonte: veja.abril.com.br