Nenhum parlamentar foi contrário ao texto, que ainda será votado em segundo turno
Senadores aprovaram na noite desta terça-feira, 3, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública por 73 votos favoráveis e nenhum contrário. O projeto prevê uma integração entre as polícias estaduais em torno de um sistema para combate do crime em todo o Brasil. Durante o debate, senadores de oposição tentaram acrescentar uma emenda para reduzir a maioridade penal de 18 anos para 14 anos, nos casos de crimes hediondos, e 16 anos para crimes em geral. No entanto, a maioria do plenário foi contra. A maioridade penal no Brasil passará a ser debatida em uma nova proposta que será encaminhada para as Comissões da Casa.
O que muda com a PEC
Um dos principais pontos da proposta é a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). A intenção é fortalecer a articulação entre os órgãos responsáveis pela segurança, com compartilhamento de informações, interoperabilidade de sistemas e formação de forças-tarefa intergovernamentais e interinstitucionais. Na prática, a medida busca reduzir a fragmentação das ações e facilitar investigações que ultrapassam fronteiras estaduais.
O texto amplia também as atribuições da Polícia Federal. A corporação poderá investigar crimes com repercussão interestadual ou internacional que exijam repressão uniforme, incluindo aqueles praticados por organizações criminosas e milícias, sem prejuízo das competências das polícias estaduais e do Ministério Público.
A Polícia Rodoviária Federal, por sua vez, passa a ter previsão constitucional para atuar no policiamento ostensivo de ferrovias e hidrovias federais. A proposta também prevê que a corporação possa auxiliar forças estaduais quando houver solicitação dos governadores e atuar em cooperação em situações de calamidade pública ou desastre.
Outro ponto é a inclusão das polícias municipais entre os órgãos de segurança pública. Os municípios poderão constituir corporações civis de carreira para realizar policiamento ostensivo e comunitário, desde que cumpram requisitos de capacidade financeira e integração ao sistema estadual. A proposta prevê ainda mecanismos de regulamentação periódica e controle externo pelo Ministério Público.
No campo penal, a PEC estabelece que uma legislação posterior deverá definir sanções mais rigorosas e regimes especiais para integrantes e líderes de organizações criminosas de alta periculosidade, milícias e autores de crimes altamente lesivos. Entre as medidas previstas estão a possibilidade de prisão em estabelecimentos de segurança máxima, restrições a benefícios penais e expropriação de bens ligados às atividades criminosas, sem indenização.
A proposta também trata do financiamento da área. O texto estabelece a transferência obrigatória de 50% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública e de 50% do Fundo Penitenciário Nacional aos estados e ao Distrito Federal, independentemente de convênios. A medida busca dar maior previsibilidade aos repasses e reduzir a dependência de negociações pontuais para financiar políticas estaduais.
O tamanho do desafio
O número de assassinatos tem caído no Brasil nos últimos anos de janeiro a setembro deste ano, foram 20. 723 vítimas, segundo o Ministério da Justiça, o menor número desde 2015, quando a pasta passou a consolidar os dados nacionais. Em 2017, por exemplo, o total de ocorrências nesse mesmo período havia sido de 30. 080. Ainda assim, o país tem uma taxa de assassinatos de 12,9 mortes a cada 100. 000 habitantes, uma das maiores do mundo.
Também ajuda a difundir na população a sensação de insegurança o alto número de alguns crimes, como estupro de vulnerável. Entre janeiro e setembro de 2026, São Paulo registrou 9. 848 vítimas de estupro de vulnerável, o maior número entre as unidades da Federação, que somam 47. 152 casos, segundo o ministério. No mesmo indicador, o Paraná registrou 3. 730, o Rio de Janeiro, 3. 378, enquanto o Pará contabilizou 3. 354 vítimas.
Nos homicídios dolosos, o Rio de Janeiro contabilizou 2. 378 vítimas no período e a Bahia teve 2. 246; ambos estão à frente de estados como São Paulo, que registrou 1. 558. A Bahia lidera os números de mortes por intervenção policial, com 1. 031 vítimas, seguida por São Paulo, com 526, e pelo Pará, com 490. Um dos pontos que deixam a esquerda na defensiva é o fato de estados governados pelo PT, como Ceará e Bahia, estarem entre os estados mais violentos do país.
Outro indicador alarmante é o que reúne os dados de feminicídios: o Brasil contabilizou entre janeiro e setembro 1. 082 vítimas, o que equivale a quatro mortes por dia, mesmo que exista uma redução de 4,5% em comparação com o ano de 2025.
Os indicadores de violência ajudam a explicar a dimensão do problema que a proposta pretende enfrentar. Além dos homicídios e dos crimes patrimoniais, os números de violência sexual e de mortes decorrentes de ações policiais mostram a complexidade da agenda de segurança pública no país.
Fonte: veja.abril.com.br