Indicador atinge maior nível em um ano; investidores vendem títulos e questionam como país financiará vencimentos em 2027
A desconfiança dos investidores em relação à economia argentina voltou a crescer. Nesta terça-feira, 20, o risco-país atingiu 710 pontos, o maior nível desde outubro de 2025, após uma nova rodada de vendas de títulos públicos no mercado internacional.
A deterioração ocorre em um momento delicado para o governo de Javier Milei, que precisa garantir recursos para pagar dívidas bilionárias no próximo ano e enfrenta condições cada vez mais difíceis para obter financiamento externo.
O indicador calculado pelo JPMorgan subiu 35 pontos em relação ao fechamento anterior e completou oito pregões consecutivos de alta. Em apenas um mês, o avanço chegou a 35%. A mudança reflete a crescente cautela dos investidores com os títulos argentinos, que acumulam perdas de aproximadamente 6% no período.
Na manhã desta terça-feira, os papéis emitidos pelo governo em dólares registravam queda média de 1,5% em Wall Street. Alguns títulos de prazo mais longo acumulavam desvalorização superior a 7% em um mês.
Dívida de 2027 preocupa investidores
A principal preocupação está na capacidade da Argentina de cumprir os compromissos financeiros previstos para 2027. O país terá de enfrentar vencimentos expressivos de títulos públicos e pagamentos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), em um cenário de acesso limitado ao crédito externo.
Segundo levantamento publicado pelo jornal argentino La Nación, os compromissos financeiros do próximo ano podem chegar a US$ 29 bilhões, dependendo das obrigações consideradas. Outras estimativas, que utilizam critérios mais restritos, apontam vencimentos próximos de US$ 21 bilhões.
O desafio para o ministro da Economia, Luis Caputo, é encontrar dólares suficientes para honrar esses pagamentos sem provocar uma nova crise cambial. Uma das alternativas seria emitir títulos no mercado internacional para substituir dívidas próximas do vencimento, operação conhecida como rolagem.
Com a alta do risco-país, porém, essa estratégia fica mais cara. Investidores exigem juros elevados para comprar papéis argentinos, o que dificulta a contratação de novos empréstimos em condições sustentáveis.
O governo tem defendido que dispõe de instrumentos financeiros para atravessar o próximo ano. Ainda assim, persistem dúvidas no mercado sobre a disponibilidade efetiva desses recursos e a capacidade de utilizá-los para quitar obrigações.
Juros americanos agravam cenário
A pressão sobre os títulos argentinos também tem origem no exterior. A aceleração da inflação nos Estados Unidos elevou as expectativas de novos aumentos dos juros pelo Federal Reserve (Fed), banco central americano.
Quando os títulos do Tesouro dos Estados Unidos oferecem retornos maiores, investidores tendem a exigir remunerações mais elevadas para aplicar em países considerados arriscados. Economias emergentes com dificuldades fiscais ou reservas limitadas ficam particularmente expostas a esse movimento.
No caso argentino, a situação é agravada pela necessidade de financiamento em moeda estrangeira e pelo histórico de crises da dívida pública.
O risco-país mede justamente o rendimento adicional exigido pelos investidores para comprar títulos de determinado governo, em comparação com os papéis americanos. A marca de 710 pontos significa uma diferença de aproximadamente 7,1 pontos percentuais entre os rendimentos considerados no cálculo.
Na prática, quanto maior o indicador, mais difícil tende a ser o acesso do país a empréstimos internacionais.
Relação com o FMI ganha importância
A Argentina também depende de sua relação com o FMI para administrar os compromissos externos. O país é o maior devedor do organismo e enfrenta um calendário de pagamentos que se estende pelas próximas décadas.
O Fundo tem elogiado aspectos da política econômica de Milei, especialmente os esforços de ajuste fiscal. O apoio institucional, entretanto, não elimina as dificuldades de financiamento nem garante que o governo consiga captar recursos privados a custos menores.
Para os investidores, a evolução das reservas internacionais será um dos principais indicadores da capacidade argentina de enfrentar os vencimentos. O acúmulo de dólares pelo Banco Central é considerado importante para reduzir a vulnerabilidade cambial e melhorar a confiança nos pagamentos futuros.
A equipe econômica aposta no ingresso de divisas por exportações, investimentos e operações financeiras para reforçar essa posição.
O cenário também depende do comportamento da economia mundial. Juros elevados nos Estados Unidos e maior aversão ao risco podem prolongar as dificuldades de financiamento, mesmo que a Argentina mantenha sua política de ajuste das contas públicas.
A alta recente do risco-país não significa que o governo esteja prestes a deixar de pagar suas dívidas. O indicador, porém, mostra que os investidores estão cobrando um prêmio maior para financiar o país. Para Milei, o desafio será reverter essa tendência antes que os compromissos de 2027 pressionem ainda mais as reservas e as contas públicas.
Fonte: veja.abril.com.br