Democratas tentam virar o controle do Congresso em sete 'swing states', ameaçando a agenda de Donald Trump
Nesta terça-feira, 2, o segundo mandato de Donald Trump viverá um momento decisivo, quando eleitores dos Estados Unidos irão às urnas para definir se os republicanos do presidente manterão o controle do Congresso, ou se a maioria ficará com a oposição democrata. Todas as cadeiras da Câmara dos Deputados e um terço do Senado estarão em disputa, além de um sem número de cargos estaduais e municipais.
Diversas pesquisas indicam que o Partido Democrata tem tudo para “virar” a Câmara. Um modelo estatístico da revista The Economist indica que a sigla tem 19 chances em 20 de conquistar a casa mais baixa do legislativo. Segundo o Cook Political Report, uma importante fonte de previsões eleitorais nos Estados Unidos, 40 das 435 cadeiras em disputa são “competitivas” — vencer cerca de metade delas daria aos democratas a maioria.
Essas cadeiras são geralmente localizadas nos distritos decisivos (battleground seats), onde a demografia, os resultados anteriores e as pesquisas de opinião não descartam a vitória de nenhum dos partidos. Entre eles estão distritos como o 14º e o 22º da Flórida, o 1º da Pensilvânia, e o 15º e o 35º do Texas.
Além disso, os democratas podem ainda conquistar o Senado, no que seria uma verdadeira reviravolta. No último século, apenas em três ocasiões um presidente americano perdeu o controle de ambas as casas do Congresso: em 1946, com o democrata Harry Truman; em 1994, com o democrata Bill Clinton; e em 2006, com o republicano George W. Bush.
Para obter a maioria dos senadores, os democratas precisam defender todas as 45 cadeiras que ocupam atualmente e conquistar pelo menos quatro que hoje estão nas mãos dos republicanos.
Conquistar qualquer uma das casas seria uma vitória significativa para os democratas, que ganhariam o poder de bloquear a agenda legislativa de Trump e investigar sua administração de forma mais incisiva. Confira os estados-chave onde a batalha pelo Senado será travada:
Texas
Em um sinal da força dos democratas, o Texas, um histórico reduto republicano, é considerado um “swing state” (estado pendular) neste ano. Lá, o democrata James Talarico, um parlamentar estadual, aparece com 50% das intenções de voto, uma vantagem de sete pontos sobre o republicano Ken Paxton, procurador-geral do estado (43%), segundo levantamento New York Times/Siena College divulgado nesta segunda-feira, 2.
Com propostas focadas na desigualdade social, Tararico é um pastor presbiteriano que defende a taxação de bilionários; Paxton, por sua vez, tem feito uma campanha baseada na sua relação próxima com Trump. O presidente americano manifestou seu apoio ao procurador-geral texano em um vídeo em que elogiou seu trabalho na “defesa da nossa fronteira sul contra as invasões de imigrantes sob Obama e Biden”, referindo-se aos seus antecessores democratas.
Talarico faria história caso seja vitorioso. O Texas não elege democratas ao Senado desde 1988.
Michigan
Este é o único estado decisivo identificado pelo Cook Political Report que está atualmente sob controle democrata (Gary Peters, que ocupa o cargo desde 2015, anunciou sua aposentadoria). O Michigan é considerado um swing state nas eleições presidenciais, mas os democratas possuem um longo histórico de vitórias para o Senado nenhum republicano conquistou uma vaga pelo estado desde 1994.
Atualmente, Abdul El-Sayed, o jovem médico muçulmano que faz parte da ala mais progressista do Partido Democrata, aparece com 53% das intenções de voto, 11 pontos percentuais à frente do ex-congressista republicano Mike Rogers (42%).
Embora a democrata Haley Stevens, que foi derrotada nas primárias de seu partido por El-Sayed, tenha declarado apoio a Rogers em uma reviravolta surpreendente, a força do médico é considerável (ele é particularmente bem avaliado entre os homens, um segmento que, historicamente, tende a apoiar os republicanos).
Sua principal proposta é o “Medicare for All”, ou seja, a expansão para todos os americanos do sistema de saúde atualmente voltado a idosos e pessoas com deficiência. Pesquisas indicam que quase metade dos eleitores do Michigan apoia a ideia (49,2%), embora uma parcela significativa permaneça contrária (40,2%).
Iowa
O estado tornou-se mais alinhado ao Partido Republicano nos últimos anos e não elege um senador democrata desde 2008. Com a população concentrada em áreas rurais (64% dos eleitores), Iowa costuma favorecer candidatos republicanos próximos ao segmento do agro.
Pesquisas recentes indicam que o Partido Democrata pode ter chances de conquistar uma vaga no Senado ali, mas a disputa está acirradíssima. O democrata Josh Turek, um parlamentar estadual e bicampeão paralímpico de basquete, tem 48% das intenções de voto, tecnicamente empatado com a deputada Ashley Hinson, a candidata republicana (47%).
Hinson tem buscado manter o apoio da base agrícola ao defender a venda, durante todo o ano, de gasolina com uma maior concentração de biocombustível uma medida destinada a reduzir os preços nas bombas e, ao mesmo tempo, beneficiar financeiramente os agricultores. Já Turek vem tentando colar-se à imagem de Barack Obama, que endossou sua candidatura e foi o último presidente democrata a vencer as eleições no estado de Iowa.
Maine
Atual senadora, a republicana Susan Collins tem 45% das intenções de voto em sua tentativa para reeleger-se a um sexto mandato. Segundo levantamento New York Times/Siena College, ela está atrás do ex-senador estadual democrata Troy Jackson (51%), um lenhador que montou uma campanha express em pouco mais de 100 dias.
A disputa foi marcada por turbulências logo no início, depois que o então candidato democrata, Graham Platner, retirou sua candidatura na sequência de uma série de controvérsias que culminaram em uma acusação de agressão sexual e estupro, a qual ele negou.
Agora, a menos de uma semana do pleito, preocupações do eleitorado com o bolso misturam-se, cada vez mais, a um julgamento mais amplo do segundo mandato de Trump. Jackson se apresentou como a alternativa da classe trabalhadora às três décadas de Collins em Washington, argumentando que sua reputação pragmática mascara um histórico de votações que, no fim das contas, beneficiou o presidente dos Estados Unidos. Os eleitores indecisos do Maine podem acabar definindo o resultado da eleição.
Kansas
O estado não elege um democrata para o Senado há 94 anos, mas Adam Hamilton, pastor da maior igreja do estado, está à frente do senador republicano Roger Marshall, com 49% das intenções de voto contra 44%, segundo pesquisa New York Times/Siena College.
Na corrida presidencial de 2024, Trump venceu no Kansas com uma vantagem de 16 sobre a democrata Kamala Harris, e sua influência no estado poderia, em um dado momento, ter ajudado Marshall — defensor fervoroso do presidente.
Contudo, atualmente, estar associado à Casa Branca pode acabar prejudicando o candidato republicano. Especialistas apontam que a insatisfação com a economia, a alta nos preços dos combustíveis e as operações truculentas do ICE, a polícia de imigração, no Kansas transformaram essa corrida em uma disputa extremamente acirrada. O Cook Political Report alterou sua classificação sobre a eleição no estado de vitória provavelmente republicana para indefinida no início de outubro.
Hamilton pode ser bem-sucedido atrair os eleitores independentes. Segundo a agência Associated Press, cerca de 29% dos eleitores registrados no Kansas não possuem afiliação partidária.
Ohio
Ohio é um estado que votou no presidente Donald Trump nas três últimas eleições presidenciais, atraindo seus eleitores brancos da classe trabalhadora. Mas, nesta terça, 3, os democratas têm uma chance real de reconquistar uma cadeira no Senado.
O ex-senador democrata Sherrod Brown lidera a disputa contra o atual senador republicano, Jon Husted, por 49% a 44%. A corrida eleitoral já movimentou meio bilhão de dólares, com os republicanos investindo US$ 80 milhões a mais em publicidade, segundo a AdImpact, serviço que monitora gastos com propaganda.
Os eleitores de Ohio estão enfrentando dificuldades devido a muitas das políticas impopulares de Trump, as quais, de modo geral, estão influenciando as midterms a favor dos democratas. O estado com forte base agrícola assistiu com irritação os preços dos fertilizantes dispararem devido à guerra no Irã; o tarifaço do presidente americano também não cumpriu a promessa de revitalizar a indústria local Ohio faz parte do chamado “cinturão da ferrugem”, que foi o maior coração industrial do país até os anos 1970, quando começou um forte declínio econômico na região. Além disso, as deportações em massa promovidas pelo governo Trump também não se traduziram em geração de empregos.
Alasca
A última vez que os democratas conquistaram uma cadeira no Senado pelo Alasca foi em 2008, e o estado não elege um governador do partido desde 1998. A única ocasião em que o Alasca não votou em um candidato republicano para a presidência foi durante a reeleição de Lyndon B. Johnson, em 1964, quando ele obteve uma vitória expressiva.
No entanto, os preços elevados da gasolina decorrentes da guerra no Irã e a inflação alta prejudicaram os índices de aprovação de Trump, a ponto de fazer com que os democratas passem a sonhar com uma vitória inesperada no estado.
A ex-congressista democrata Mary Peltola mantém uma vantagem estreita sobre o senador Dan Sullivan (48% contra 46%). Embora os focos de sua campanha tenham alcance nacional (redução da inflação, dos preços da energia e garantias à subsistência), ela vem apostando em um estilo próprio de política local, se distanciando da declaração de apoio da ex-vice-presidente Kamala Harris e descrevendo-se como “centrada no Alasca”.
No entanto, Peltola vem enfrentando críticas após uma investigação do New York Times revelar que sua campanha pode ter conduzido uma manobra para desviar votos do rival: outro candidato, chamado Dan J. Sullivan, teria sido recrutado para concorrer como republicano no pleito. A investigação sobre o caso aberta pelo governo do estado pode atrasar a definição dos resultados eleitorais.
Fonte: veja.abril.com.br