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O grande dilema de Lula ao começar a organizar seu novo mandato no Planalto

Petista terá de conciliar uma ampla lista de promessas eleitorais com o necessário e urgente reequilíbrio das contas públicas

Em 2014, a então presidenta Dilma Rousseff conquistou a reeleição ao Palácio do Planalto recorrendo à conhecida cartilha petista. Durante a campanha, minimizou os sinais de deterioração da economia acumulados ao longo do primeiro mandato dela e prometeu aos brasileiros mais quatro anos de prosperidade sob um programa batizado de Mais mudanças, mais futuro.

A narrativa eleitoral era simples: caso Dilma fosse reeleita, as conquistas sociais seriam ampliadas, com mais recursos, oportunidades e benefícios para a população. A vitória do adversário, por outro lado, representaria o risco de um retrocesso generalizado, com a perda de direitos, o corte de gastos sociais e o abandono dos mais pobres à própria sorte.

Sob o manto do medo e da polarização com o PSDB, Dilma venceu as eleições. Não demorou, porém, para que a realidade cobrasse a fatura de promessas que o governo já não tinha condições de cumprir. A profunda recessão que marcou seu segundo mandato expôs a distância entre o discurso de campanha e as condições efetivas da economia. A expressão estelionato eleitoral ganhou notoriedade naquele período e passou a sintetizar, para os críticos do governo, a contradição entre o país prometido nas urnas e aquele que os brasileiros encontraram depois delas.

À frente de uma administração fragilizada pela crise econômica, pela impopularidade e pela perda de sustentação política, Dilma viu sua base parlamentar se desintegrar e acabou afastada da Presidência antes de concluir o mandato.

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Vitorioso nas urnas de domingo, Lula recorreu a uma estratégia que guarda semelhanças com a de sua antecessora. Sem enfrentar de maneira convincente a perspectiva de agravamento do quadro fiscal, o petista assumiu o compromisso de preservar o legado social de seu governo e inaugurar um novo ciclo de prosperidade. Prometeu ampliar investimentos públicos em educação, ciência e tecnologia, além de expandir significativamente os benefícios sociais já existentes.

Resta explicar, contudo, de onde virão os recursos para financiar essa agenda. Diante de um orçamento pressionado e de um Estado com limitações crescentes para ampliar suas despesas, Lula terá de demonstrar onde está a margem de manobra que permita transformar as promessas eleitorais em políticas concretas. Nesta terça-feira, integrantes do PT já começaram a relativizar os prazos de execução das propostas, argumentando que nem todos os compromissos assumidos durante a campanha poderão ser cumpridos imediatamente e que os benefícios serão implantados de maneira gradual, ao longo dos próximos anos.

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A depender da evolução das contas públicas, o novo mandato poderá começar sob a pressão de um ajuste fiscal de grandes proporções medida que, além de politicamente custosa, estará distante das expectativas alimentadas durante a campanha. O desafio de Lula será conciliar a preservação das políticas sociais com a necessidade de reequilibrar as contas do governo, sem frustrar justamente a parcela do eleitorado à qual dirigiu suas principais promessas.

O ambiente político também poderá reproduzir parte do roteiro que marcou a crise do governo Dilma. Lula terá de administrar as repercussões de denúncias e investigações envolvendo pessoas de seu entorno, entre elas seu filho Lulinha, citado em apurações da Polícia Federal, além de eventuais desdobramentos de suspeitas relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro. A dimensão e as consequências políticas desses episódios dependerão, naturalmente, do que vier a ser efetivamente apurado — e se apurado — pela Polícia Federal.

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Se a deterioração econômica ganhar intensidade, a relação com o Congresso poderá se tornar ainda mais difícil. A experiência de Dilma demonstrou como a combinação de recessão, perda de popularidade e isolamento parlamentar pode comprometer a sustentação de um presidente. Lula terá de preservar canais de diálogo com as duas Casas legislativas e, sobretudo, evitar que o desgaste econômico se converta em uma crise de governabilidade.

Nesse caminho, a presidência da Câmara dos Deputados e o comando do Senado assumem importância vital ao petista. Mais do que aliados ocasionais, Lula precisará de interlocutores capazes de manter a agenda do governo em movimento e impedir que a insatisfação política se transforme em derrotas no Parlamento. Em um ambiente já conflagrado, a possibilidade de iniciativas da oposição, inclusive de natureza institucional — impeachment? –, exigirá articulação política permanente.

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O desafio, portanto, será acomodar a ambição das promessas eleitorais aos limites impostos pela realidade fiscal. Não basta anunciar um novo ciclo de prosperidade: será necessário financiá-lo, demonstrar sua viabilidade e entregar resultados compatíveis com as expectativas criadas nas urnas.

Não será uma tarefa simples encaixar a ficção das promessas eleitoreiras na realidade de um governo economicamente quebrado. O resultado das urnas de domingo ao menos foi justo ao dar a Lula a oportunidade de lidar com um problema que ele mesmo criou. Se conseguir, sairá do Planalto exaltado. Se fracassar, a distância entre o discurso e a prática poderá se tornar uma marca no seu novo mandato e a comparação com Dilma deixará de ser apenas uma advertência histórica para se converter em um problema político concreto.

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Fonte: veja.abril.com.br

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