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Não foi sorte. Foi consistência

De estagiário em Betim à lider industrial no México, José Renato Pagano construiu carreira internacional marcada por adaptação, disciplina e consistência

José Renato Pagano construiu uma carreira que ultrapassou fronteiras geográficas e culturais. Brasil, China, Índia, Vietnã, Reino Unido e México fazem parte de uma trajetória de mais de três décadas na indústria, marcada pela capacidade de adaptação, pela liderança de equipes e por uma convicção que se fortaleceu ao longo do caminho: uma carreira consistente não se constrói por acaso.

Nascido em Itaúna, Minas Gerais, em 21 de dezembro de 1975, José Renato Pagano é filho de José dos Santos Pagano e Gilsa Lucinda Pagano. Cresceu em uma família de classe média, em um ambiente no qual nunca faltou o essencial, mas também não havia excessos. Do lado paterno, é neto de Ademar dos Santos Pagano e Mariana Batista Pagano; do lado materno, de Zoroastro Oliveira Lucinda e Neisa de Melo Lucinda. Com os pais e avós, aprendeu desde cedo que nada vem de graça e que, quando se planta o bem, colhe-se o bem. Casado com Andresa e pai de Gabriel e Letícia, procura hoje transmitir esses mesmos valores aos filhos.

Sua formação começou na área técnica, com o curso de Mecânica no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), iniciado em 1990 e concluído quatro anos depois no Cefet do Espírito Santo, em Vitória. Na sequência, avançou nos estudos: graduou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade de Itaúna, em 2003, e concluiu, nove anos mais tarde, o Mestrado Profissional em Infraestrutura e Gerência Viária, com ênfase em Transportes, pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Uma carreira construída sem atalhos

Pagano começou a carreira na Fiat, em Betim, em 1994, como estagiário, e posteriormente foi efetivado. Ainda jovem, aos 19 anos, enfrentou um dos primeiros desafios de liderança: conduzir profissionais mais experientes do que ele. Aprendeu a conquistar espaço não pela autoridade do cargo, mas pelo conhecimento, pelo respeito e pela consistência das entregas. Passou por diferentes áreas da manufatura, de motores a transmissões, ampliando gradualmente suas responsabilidades até assumir, em 2015, como gerente da fábrica de transmissões da Fiat, também em Betim, sua primeira posição com responsabilidade integral sobre uma operação industrial.

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Três anos depois, já como General Plant Manager da unidade de veículos em Betim, enfrentou um dos períodos mais desafiadores de sua trajetória no Brasil. A greve dos caminhoneiros afetava o abastecimento e a logística, enquanto rumores de mercado sobre uma possível mudança societária aumentavam a insegurança entre as equipes. Mais do que garantir a continuidade das atividades, era preciso manter as pessoas engajadas em um cenário de incerteza.

Foi nesse contexto que ele conduziu o Projeto Orange, iniciativa criada para promover um turnaround e fortalecer a operação. O WCM (World Class Manufacturing) serviu como base para o trabalho, direcionado à melhoria da eficiência, da qualidade e da produtividade, além da redução de custos e da recuperação da competitividade. Pagano conduziu reuniões diárias de acompanhamento e workshops semanais com a equipe, buscando alinhar a liderança em torno de um objetivo comum e concentrar esforços naquilo que poderia ser transformado dentro da fábrica. Reconhecido globalmente no grupo como uma best practice uma prática de referência , o projeto tornou-se um exemplo de como direcionamento, método e engajamento podem transformar um cenário de pressão em um esforço coletivo de recuperação. A experiência reforçou uma convicção que ele carrega até hoje: motivação, engajamento e comprometimento são fundamentais para atravessar momentos difíceis.

Liderar além das fronteiras

A carreira internacional de Pagano começou em 2020, quando a FCA (Fiat Chrysler Automobiles) o sondou para uma posição expatriada. Após uma entrevista com Maximilian Trantini, então COO da região Ásia-Pacífico (Apac), mudou-se para Xangai e assumiu como Head of Manufacturing Apac Region, responsável por operações de veículos, motores e transmissões, além de Engenharia de Manufatura na China e na Índia. Cerca de um ano depois, com a união entre a FCA e o grupo francês PSA, que deu origem à Stellantis, passou a liderar a manufatura na China. Foram aproximadamente dois anos no país, justamente durante os confinamentos provocados pela covid-19, em uma experiência que exigiu muito mais do que conhecimento técnico.

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Em sua primeira posição de liderança fora do Brasil, precisou compreender novos códigos culturais e adaptar sua própria forma de gestão. Nas reuniões, percebeu que o silêncio nem sempre significava concordância e que as divergências podiam ser manifestadas de maneira mais indireta. Aprendeu a observar mais, fazer perguntas e construir confiança antes de esperar posicionamentos abertos. A China lhe mostrou, na prática, que liderar em diferentes culturas também significa adaptar a maneira de ouvir e de se comunicar.

Essa disposição para sair do ambiente conhecido pesou na decisão seguinte. Em 2022, uma abordagem inesperada do RH da VinFast, fabricante vietnamita de veículos elétricos, o levou a conversar com Le Thi Thu Thuy, então vice-chairwoman da companhia, sobre uma posição no Vietnã. Pagano decidiu deixar a Stellantis atraído pela possibilidade de colocar suas habilidades à prova em uma realidade completamente nova e assumiu o cargo de Deputy Global Manufacturing Chief, uma posição de liderança na área de manufatura da VinFast.

 Morando com a família em Hanói, capital do Vietnã, e trabalhando principalmente no complexo industrial de Hai Phong, mergulhou em uma operação de mobilidade elétrica em rápida expansão, envolvendo a manufatura de veículos, sistemas de propulsão e armazenamento de energia, além de ônibus elétricos e scooters. Precisou assimilar novas tecnologias e produtos sem perder de vista a execução e o desenvolvimento das equipes. A passagem pela VinFast ampliou sua visão sobre manufatura e sobre as transformações que começavam a redefinir a indústria da mobilidade.

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Ao deixar o Vietnã, em 2023, Pagano decidiu fazer uma pausa após anos marcados por desafios sucessivos e tirou um período sabático de aproximadamente seis meses para se dedicar à família e a novos aprendizados. Ao final desse período, durante uma viagem ao Brasil, o reencontro com Diego, antigo colega de trabalho, abriu uma possibilidade diferente: empreender. Tornou-se sócio da Cronnus Consultoria e passou a experimentar diretamente o impacto das decisões sobre custos, clientes e resultados, desenvolvendo o que mais tarde chamaria de mentalidade de dono. A experiência empresarial, no entanto, não encerrou seu percurso internacional. Em 2024, o contato de um headhunter o levou ao Reino Unido para assumir como COO da Wrightbus, fabricante britânica de ônibus elétricos e movidos a hidrogênio. Além do interesse pelas novas tecnologias, a decisão também teve uma dimensão familiar: sua filha sonhava em morar no país e já havia estudado em escolas internacionais britânicas na China e no Vietnã.

Foi ainda na Wrightbus que, em meados de 2025, Pagano recebeu o convite para retornar à Stellantis como vice-presidente de Operações de Powertrain no México. Voltar ao grupo onde havia construído grande parte de sua carreira tinha um significado especial, desta vez após experiências profissionais na Ásia e na Europa. Como alguns clientes da Cronnus atuavam no mesmo setor, deixou a sociedade por razões éticas e profissionais e passou a se dedicar integralmente à nova posição. Atualmente, baseado em San Pedro Garza García, na região metropolitana de Monterrey, responde por duas unidades industriais da Stellantis no estado de Coahuila: a Saltillo North Engine Plant (SNEP) e a Saltillo South Engine Plant (SSEP), dedicadas à produção de motores para programas da companhia no México e na América do Norte.

Conhecimento técnico não basta

Ao longo da carreira, Pagano percebeu que conhecimento técnico é essencial, mas não suficiente. Relações de confiança também fazem diferença. Uma de suas maiores satisfações é reencontrar profissionais com quem trabalhou e perceber quanto cresceram. Para explicar essa combinação, recorre à analogia de uma chave: a base representa aquilo que uma pessoa sabe fazer bem; os dentes, suas competências e atitudes; e as conexões ajudam a abrir portas. Em diferentes momentos, líderes e colegas confiaram nele antes mesmo que se considerasse totalmente preparado. Mas faz uma ressalva: relacionamento abre oportunidades, não garante permanência. Para ele, as portas só continuaram abertas porque a confiança veio acompanhada de entrega.

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Planejar o futuro também se tornou um hábito cedo. Entre os 18 e os 20 anos, quando aprendeu a usar Excel, começou a registrar seus objetivos: concluir a formação, crescer profissionalmente, construir uma família, conquistar estabilidade financeira e desenvolver uma carreira internacional. O plano mudou diversas vezes, mas a direção permaneceu. Pagano considera que alcançou a independência financeira na mesma época em que decidiu se mudar para a China. Essa conquista foi um fator importante para que tomasse a decisão com tranquilidade e, desde então, passou a escolher seus novos desafios com maior liberdade, considerando propósito, aprendizado e impacto, e não apenas a necessidade financeira.

Mentalidade de dono

A passagem pela Cronnus Consultoria colocou Pagano diante de uma perspectiva diferente da tomada de decisão. Como empreendedor, deixou de observar custos, clientes e resultados apenas sob a ótica de um executivo e passou a sentir diretamente o impacto de cada escolha. Em algumas situações, ele e o sócio abriram mão de oportunidades por entender que não havia alinhamento de valores ou segurança para entregar com excelência. Também reposicionaram o negócio, privilegiando a qualidade dos contratos em vez da quantidade. Quando voltou ao ambiente corporativo, levou esse aprendizado consigo: passou a olhar com ainda mais atenção para custos, velocidade de decisão e responsabilidade pelos resultados, questionando complexidades desnecessárias e tratando os recursos da companhia com a mesma responsabilidade que teria se fossem próprios.

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Os anos de atuação internacional também transformaram sua relação com a pressão. Trabalhar entre diferentes países e fusos horários mostrou que estar disponível o tempo todo não significa decidir melhor. Pagano passou a organizar as prioridades por impacto e urgência, delegar mais, estabelecer rituais de acompanhamento e reservar tempo para pensar antes das decisões mais importantes. Para ele, até o equilíbrio precisa ser planejado.

Saber onde está e para onde vai

Essa necessidade de parar para pensar também faz parte de sua rotina pessoal. Todos os dias, Pagano reserva alguns minutos para avaliar o que fez bem, o que precisa ajustar e o que ainda pode começar. A gratidão veio da formação familiar; a reflexão tornou-se mais estruturada com a maturidade e a fé, transmitida pelos pais e avós, ganhou significado próprio ao longo dos anos. Entre as referências que carrega está uma frase de seu saudoso avô materno, Zoroastro Oliveira Lucinda, a quem chamava carinhosamente de Pai Zoro. Dita em bom mineirês, a expressão era simples: Sempre tem que saber oncotô e proncovô.

Por trás da frase está uma ideia que Pagano levou para a vida: reconhecer com honestidade onde se está, definir onde se quer chegar e ajustar a rota sempre que necessário, sem perder a direção. Talvez essa seja também a melhor síntese de uma trajetória que começou com um estágio em Betim e atravessou diferentes empresas, países e culturas. Para Pagano, sucesso não está em esperar o momento perfeito, mas em saber para onde se quer ir e continuar avançando.

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Fonte: veja.abril.com.br

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