Esqueleto de mulher enterrada de bruços confirma aplicação de severa pena corporal descrita em códigos jurídicos medievais
A análise de uma ossada humana de cerca de 700 anos, descoberta no cemitério de Sanzhiyuan, na China, revelou a primeira evidência arqueológica da aplicação da amputação nasal como punição corporal na China antiga.
O estudo, publicado pelo Journal of Archaeological Science: Reports, identificou uma mulher de 40 a 45 anos, que viveu entre o final da dinastia Yuan e o início da Ming (12981404 d.C.), teve os ossos e cartilagens do nariz cirurgicamente removidos em vida e foi sepultada de bruços, um ritual associado a indivíduos punidos pela Justiça, confirmando práticas de fortes penalidades descritas nos códigos jurídicos medievais chineses.
De 213 esqueletos analisados no local, ela foi a única pessoa enterrada de bruços. Na tradição funerária chinesa, sepultar um corpo virado para baixo era um ritual associado a criminosos, indivíduos punidos ou pessoas caídas em desgraça social.
O único item funerário encontrado em seu túmulo foi um alfinete de cabelo de cobre. A análise revelou uma dieta baseada em painço (millet) com baixíssimo consumo de proteína animal, padrão típico de camponeses e classes populares.
Análise patológica
A tomografia do crânio mostrou a remoção deliberada e cirúrgica dos ossos nasais e de estruturas cartilaginosas e ósseas do interior da cavidade nasal.
Não foram encontradas fraturas em outros ossos da face ou mandíbula, e os dentes frontais estavam intactos. Isso descarta quedas graves, acidentes ou golpes violentos com armas cegas. Há também a ausência de marcas de dentes de animais carnívoros e de sinais de doenças destrutivas avançadas (como lepra, tuberculose ou sífilis gástrica/óssea), garantindo que a perda do nariz foi provocada por amputação intencional.
As bordas dos ossos cortados na região nasal apresentavam nítidos sinais de regeneração e remodelamento ósseo. Isso prova que a mulher não morreu no momento da amputação, mas sobreviveu por um longo período após o corte.
A cavidade nasal aberta expõe o organismo a sangramentos massivos e infecções fatais. A sobrevivência prolongada indica que, apesar de ter sido uma mulher punida e de baixo status social, ela recebeu cuidados médicos para cicatrizar o ferimento.
O estudo conclui que este é o primeiro caso arqueológico documentado de amputação nasal como punição corporal na China medieval. Ele comprova que as severas penalidades descritas nos códigos legais antigos eram praticadas e causavam tanto a desfiguração física permanente em vida quanto o estigma social refletido no sepultamento pós-morte.
*Sob supervisão de André Rigue.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br