À coluna GENTE, Marcello fala sobre emoção de representar a mãe na campanha
Aos 61 anos, Marcello Camargo vai realizar um desejo antigo: subir ao palco do Teleton. Filho de Hebe Camargo (1929-2012), o apresentador participa pela primeira vez do evento, neste sábado, 7, cuja ideia foi levada a Silvio Santos (1930-2024) pela sua mãe há quase 30 anos. Madrinha da campanha, Hebe manteve seu envolvimento com a iniciativa até 2011, mesmo já debilitada. Em conversa com a coluna GENTE, Marcello falou sobre a emoção de ocupar um espaço tão simbólico na trajetória da mãe, explicou como preserva a memória da apresentadora e abordou a relação com a família Abravanel.
(A coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente)
Você vai participar pela primeira vez do Teleton no palco. Qual é a expectativa? Em 2024, eu fiz um vídeo curto. Agora é a primeira vez que estarei no palco e me sinto honrado, porque o Teleton era importante para a minha mãe. Ela se entregava ao projeto de alma e coração.
Como aconteceu? Você foi convidado? A produção me convidou para estar lá no palco, e eu, de prontidão, já aceitei. Fui testemunha do nascimento do Teleton quando a ideia chegou até minha mãe e ela fez com que o Silvio abraçasse o projeto.
O que você acha que Hebe diria se visse você participando do Teleton? Ficaria emocionada. Tenho certeza de que seria do desejo dela que eu continuasse a representando. Porque nem doente ela deixou de ir. Em 2011 foi o último Teleton que ela foi, já estava bem debilitada pela doença, mas jamais deixou de se entregar à causa.
Você tem uma relação com causas sociais? Ajudo algumas, mensalmente, como o GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescentee à Criança com Câncer). Mas nunca participei em algo como o Teleton. Fui logo depois que ela faleceu, mas fiquei só na plateia. Acho que era um desejo meu participar e tenho certeza de que ela, de onde estiver, vai estar feliz.
Como estão os preparativos? A minha entrada vai ser emocionante por essa surpresa que estamos preparando e vai remeter a ela, com certeza. Na verdade, será como se ela estivesse ali através de mim, o que é uma responsabilidade. É um projeto importante, é lindo demais você ver a superação e a alegria daquelas crianças, que passam por momentos difíceis, mas estão ali sorrindo, brincando. É uma lição de vida.
O que você acha que Silvio Santos diria sobre sua participação? Eu sempre esperei esse convite, pela importância dela para o Teleton. Para ser sincero, eu esperava que esse convite viesse já no primeiro ano após a partida dela. Mas acho que tudo tem sua hora, Deus é que sabe.
Como foi crescer como filho de uma estrela da televisão? Como você lidou com a fama ao longo dos anos? Tenho uma vida meio pacata em relação a todo esse estrelato. Quando eu estava com ela, caía a ficha: “Ah, eu sou o filho da Hebe”. Quando ela faleceu, eu quis me afastar, morar no interior, porque ela era a minha motivação. Mas percebi que quando as pessoas me encontravam, parecia que estavam se encontrando com ela. Com isso, vi que tenho a responsabilidade de seguir com esse legado. Um amigo meu falou uma coisa muito bonita: “Sua mãe vive em você”. Para mim, ser o filho da Hebe é um privilégio.
Você procura preservar a memória dela nas redes sociais e nos projetos que desenvolve. O que o leva a fazer esse trabalho? Hoje é o meu trabalho em função dela, de preservá-la. O próprio Café com Selinho, meu programa, é uma referência a ela. Depois de passado o luto, hoje isso me fortalece. Uma vez perguntaram: “Se sua mãe aparecesse hoje, qual pergunta você gostaria de fazer ou o que gostaria de falar?”. Eu respondi: “Mãe, você está contente com o que eu estou fazendo?”. Porque ela era crítica. Não era porque era o filhinho dela que achava tudo lindo.
Há alguns anos, veio à tona a história da mansão onde a Hebe mora, que estaria abandonada. Você sabe como está a situação da casa? Essa história me incomodou bastante porque aquela casa, na verdade, era a que o Lélio [Ravagnani, marido de Hebe] construiu para morar com a minha mãe. Em 2000, quando Lélio estava internado, minha mãe já nem morava mais lá. Quando ele faleceu, ela entregou uma chave para cada um dos filhos e nunca mais fomos lá. O que me incomoda é que todas as pessoas que acham que a casa era dela, que era de posse dela, vêm me cobrar: “Nossa, o filho largou a casa nesse estado. A mãe levou tantos anos para construir e o filho larga assim”. E não é minha.
Como ficou o acervo da sua mãe? Eu tinha cedido ao Claudio [Pessutti] o direito de cuidar disso, mas com seu falecimento, o acerto voltou para as minhas mãos. Aí pedi para a Lydia Sayeg, que era a joalheira e amiga da minha mãe, e o Evaldo Pereira, amigo próximo meu, para me ajudarem a cuidar desse acervo, porque era muita coisa. A Lydia montou uma casa maravilhosa no Jardim Europa e hoje guarda parte do acervo. Está tudo muito bem. É aberto somente a convidados, mas tenho desejo de algum empresário adquirir parte desse acervo e montar um pequeno museu ou uma casa temática aberta ao público porque é um patrimônio do Brasil.
O que faz parte desse acervo? Sapatos, bolsas, troféus, sofá, um carro, fotos, bolsas e vestidos, como o que ela usou no Grammy e o que ela cantou com Roberto Carlos.
Como era a Hebe que o público não conhecia? Como na televisão, espontânea. Não tinha essa de ser um personagem. Como mãe, era maravilhosa. Ela tinha amor à vida e vivia intensamente. Por isso, para ela ficar numa cama, debilitada, ia ficar extremamente infeliz. E a última coisa que eu queria na vida era ver minha mãe infeliz. Claro que eu queria que ela vivesse 100 anos, mas com saúde.
Você acha que a televisão e o Brasil, como um todo, valorizam sua mãe? Costumam dizer que o Brasil não tem memória, mas eu discordo. Tem, sim. Ela sempre será lembrada como a rainha da TV brasileira, uma referência para as mulheres. Pessoas como ela, Carmen Miranda, Sílvio, Chacrinha e Ayrton Senna vão atravessar gerações. E eu, enquanto estiver aqui, vou colaborar para que ela jamais seja esquecida.
Como é sua relação com a família Abravanel? Não tenho muito contato, mas as poucas vezes que estive com a Patrícia, ela foi extremamente carinhosa. A Silvinha Abravanel estudou comigo no colegial, mas não tenho esse contato íntimo. Sempre fui tratado com carinho, especialmente pela Patrícia. O Silvio eu vi três ou quatro vezes na vida. Muita gente acha que minha mãe vivia na casa dele. Eu também imaginava isso, que tinha mais contato, mas não. Os dois tinham uma admiração muito grande um pelo outro e quando estavam juntos no palco era aquela folia, aquilo que a gente via. São dois ícones da TV brasileira. Sempre serão o rei e a rainha da TV.
Fonte: veja.abril.com.br