Nesta reta final da campanha, a disputa do segundo turno ultrapassou as páginas oficiais dos candidatos e dos partidos e ganhou tração de forma orgânica não só em atos pelas ruas do país, mas também nas redes sociais. Pessoas que costumavam evitar falar de política passaram a abraçar o tema, e até contas que estavam praticamente abandonadas foram reativadas nas plataformas digitais. O objetivo de tentar influenciar o voto de última hora transformou eleitores comuns e discretos em mil

Nesta reta final da campanha, a disputa do segundo turno ultrapassou as páginas oficiais dos candidatos e dos partidos e ganhou tração de forma orgânica não só em atos pelas ruas do país, mas também nas redes sociais. Pessoas que costumavam evitar falar de política passaram a abraçar o tema, e até contas que estavam praticamente abandonadas foram reativadas nas plataformas digitais. O objetivo de tentar influenciar o voto de última hora transformou eleitores comuns e discretos em militantes virtuais ativos e superengajados. A motivação surge em campos opostos do espectro político, mas parte de um mesmo gatilho: a sensação de urgência diante e uma disputa acirrada entre Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL. De um lado, a aposentada Luciana Mattoso, eleitora de esquerda, conta que o cenário das urnas no primeiro turno funcionou como um alerta. Integrante do canal de WhatsApp "Exército do Lula", ela entendeu que o engajamento digital se tornou um passo indispensável para tentar alcançar quem ainda não se decidiu. "Eu sou de um tempo em que não havia esse movimento e essa influência muito forte de redes sociais nas pessoas, mas aos poucos a gente vai entendendo que isso hoje em dia conta muito. E quando eu percebi que isso realmente era necessário, eu comecei a acreditar que compartilhar publicações com evidências era uma forma de atingir pessoas que ainda possam estar duvidosas. Do outro lado da disputa, bolsonaristas se concentram no canal "Tropa do Flávio". Mas não é só no WhatsApp que ocorre a mobilização digital. O candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, participa de ato político com apoiadores na Avenida Paulista, na região central de São Paulo (SP) Luiz Rodrigues/AtoPress/Agência O Globo O empresário Giovanne Guerra, eleitor de direita, prefere atuar por conta própria nas redes. Para ele, publicar conteúdos sobre o candidato virou uma espécie de voz de protesto contra o atual cenário político. As pessoas estão engajando na rede porque é tipo uma voz de protesto. Já que eu não tenho o que fazer, eu vou para a rede social. Eu compartilho aquilo que eu acredito ser verdade e só compartilho o que eu estudei ser verdade ou não. A ideia é tentar. No meu caso, eu tenho 30 e poucos mil seguidores, eu acho que alguma pessoa eu vou atingir e vou conseguir converter voto para o candidato que eu quero. Apesar de defenderem visões distintas de país, as histórias de Luciana e Giovanne se cruzam, sem que saibam, na mesma certeza: a de que as redes deixaram de servir para mero entretenimento para virarem arena de convencimento decisiva nesta reta final. A busca por conversão de votos no detalhe mostra como a figura do chamado "microinfluenciador" do cotidiano ganhou peso nas campanhas. Segundo o antropólogo da tecnologia e professor da Universidade da Virgínia, David Nemer, esse engajamento espontâneo ganha força quando a disputa se afunila, e o eleitor sente que a manifestação individual pode ser o diferencial na contagem dos votos. "A pessoa que leva esse conteúdo para um grupo da família ou para um amigo tem mais chance de acreditar, porque essa informação está vinda de uma pessoa que eles confiam. Você tende a confiar mais do que se for uma influencer de uma rede social onde você não tem um alcance, você não conhece pessoalmente, você pode ter até uma admiração, mas não há ali uma relação pessoal. A pessoa ali, nesse nível pessoal, fala a linguagem justamente que os seus parentes, seus amigos confiam e entendem. Então essa microinfluência aqui tem muito poder. " Esse movimento de "quebra do silêncio" em contas pessoais reflete uma polarização que extrapola os palanques oficiais. A questão, para o marqueteiro e cientista político, Alberto Lage, é se há espaço para as campanhas digitais orgânicas terem impacto real nas urnas. "Quando os agentes desse exército do Lula ou dessa tropa do Flávio comunicam com pessoas que eles conhecem, eles se comunicam de uma forma muito mais eficaz do que a propaganda tradicional. Agora a gente precisa ver se esse cenário que aconteceu no ambiente digital é replicável nas urnas, porque numa eleição com muito pouco espaço o que vai fazer a diferença realmente é a capacidade de tirar o eleitor de casa." Essa dúvida só vai ser esclarecida neste domingo, quando os brasileiros voltarão às seções eleitorais. A votação ocorre das oito da manhã às cinco da tarde, e a apuração começa logo na sequência.
Fonte: cbn.globo.com