Carta assinada por 25 democratas da Câmara questiona se autoridades do governo americano ajudaram o senador a sair do Brasil e por que ele obteve visto
Mais de vinte políticos democratas do Congresso dos Estados Unidos questionou, em carta enviada ao secretário de Estado Marco Rubio, qual foi o papel do governo Donald Trump na fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil e por que ele e a família receberam vistos para entrar em território americano. A exigência por explicações foi repassada ao chefe da diplomacia do país na quinta-feira 29, segundo o portal de notícias Politico, que obteve acesso ao documento.
O site informou que 25 deputados, incluindo membros de destaque do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, assinaram a carta pedindo que Rubio esclareça como a concessão dos vistos humanitários (“humanitarian parole“) foi coordenada com outros órgãos do governo, se as autoridades estavam cientes das investigações em curso contra Flávio no Brasil e em que medida o Departamento de Estado e seus funcionários auxiliaram o senador a viajar para os Estados Unidos.
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“O povo americano e o Congresso têm um interesse legítimo, no exercício de suas funções de fiscalização, em compreender se recursos diplomáticos e de imigração dos Estados Unidos foram utilizados para facilitar a viagem de uma figura política estrangeira nessas circunstâncias”, escreveram os parlamentares. “A transparência é particularmente importante quando os fatos relatados envolvem um processo judicial estrangeiro, relações bilaterais sensíveis e a aplicação consistente das políticas de imigração e diplomacia dos Estados Unidos.”
A carta, encabeçada pelas deputadas democratas Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e Dina Titus, de Nevada, ainda não levou o Departamento de Estado a se manifestar.
Auxílio de Trump
O jornal The New York Times apurou que a operação de fuga só ocorreu porque o presidente Trump garantiu que o senador pudesse entrar em território americano sob uma permissão de acolhida humanitária (“humanitarian parole“) e que Jason Miller, conselheiro e estrategista do republicano, teria providenciado o jatinho que ele e a família pegaram na Argentina rumo a Miami.
Em paralelo, o argentino Clarín, segundo o qual o governo de Javier Milei “participou ativamente” da operação, com escoltas de autoridades migratórias e aeroportuárias da fronteira até o avião, que saiu de Puerto Iguazú, também apurou que a Casa Rosada só atuou após indicação de que haveria ajuda da Casa Branca.
Nesta semana, Trump questionou diversas vezes a legitimidade das eleições brasileiras, que deram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um quarto mandato, com 51,8% dos votos contra 48,21% de Flávio. O presidente americano afirmou que o processo foi “uma vergonha” e chegou a dizer que o pleito “pareceu fraudado”. No entanto, após o senador do PL publicar nas redes uma carta de teor golpista, ele recuou, afirmando não ter intenção de “se envolver” na disputa política brasileira.
A agência de notícias Reuters ouviu fontes próximas a Trump, que disseram que ele não pretende apoiar Flávio como “verdadeiro líder do Brasil”, como ele se autointitulou na carta, mesmo tendo sido derrotado nas urnas.
Investigações e proibição de viajar
Os políticos democratas levantaram seus questionamentos em meio a uma série de investigações abertas contra Flávio Bolsonaro, que, um dia antes de deixar o Brasil, havia sido proibido de viajar ao exterior por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O senador, no entanto, não entregou seus passaportes como previsto pela ordem judicial, e os documentos foram posteriormente cancelados embora ele ainda tenha um passaporte italiano e, segundo o New York Times, tenha conseguido entrar nos Estados Unidos com o passaporte diplomático, mesmo suspenso.
Flávio foi proibido de deixar o país no âmbito do processo em que o senador e o advogado Willer Tomaz são investigados por lavagem de dinheiro, em um suposto esquema que envolveria empresas de Tomaz e bets. Os dois confirmam que são amigos, mas negam que sejam sócios — e qualquer irregularidade.
O ex-candidato presidencial também é formalmente investigado pela Polícia Federal (PF) em inquérito aberto para apurar a possível prática de crimes relacionados ao financiamento da produção do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Após ser derrotado por Lula nas eleições presidenciais, ele se negou a reconhecer o resultado e afirmou que pediria a anulação do pleito, mesmo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) descartando quaisquer irregularidades no pleito que pudessem decorrer da extensão por duas horas no horário de votação. Depois, no entanto, o PL e seus aliados admitiram a vitória de Lula.
Fonte: veja.abril.com.br