Pular para o conteúdo
No ar
Ao vivo agora 3CLIMAS CULTURA RÁDIO JORNAL TV
Tocando agora 3CLIMAS CULTURA ao vivo
Fale no WhatsApp

Cerveja de sorgo abre caminho para novos usos do grão no Brasil

A demanda internacional e a busca por alimentos de maior valor agregado ampliam as oportunidades para o cereal além da ração animal e da silagem

Rústico e de origem africana, o sorgo ganha espaço além dos cochos e das fábricas de ração. A tolerância à seca e o baixo custo de cultivo, que ajudaram a disseminar o grão nas lavouras brasileiras na década de 1970, agora se somam às oportunidades abertas pelas mudanças no consumo de alimentos e bebidas, em especial na Ásia.

Testar a viabilidade econômica do sorgo em produtos de linha premium motivou uma multinacional a desenvolver um protótipo de cerveja à base do cereal. O movimento busca ampliar o valor comercial da cultura.

Para fazer a cerveja, utilizamos o grão de sorgo, que é colhido no campo e usado como matéria-prima para a produção da bebida. Estamos no início dessa cadeia. Nosso trabalho é desenvolver e comercializar sementes de sorgo, conta à CNN o gerente de marketing da Advanta Seeds, Pedro Lima.

A empresa de origem asiática atualmente pertence ao grupo indiano UPL Limited e tem sede global em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. No Brasil, está instalada em Campinas (SP).

Lima destaca o comércio de sementes de sorgo como pilar do processo produtivo e estímulo ao consumo no setor de alimentos e bebidas. A ideia de produzir a cerveja demonstra o potencial do grão no Brasil, acrescenta.

O milho e a soja são muito conhecidos no país, mas o sorgo ainda não é tão difundido. Como trabalhamos com essa cultura, fomentamos seu cultivo no Brasil e desenvolvemos e produzimos sementes aqui, pensamos em mostrar ao mercado consumidor que o sorgo pode ser cada vez mais utilizado, ressalta.

Além disso, o sorgo é um grão naturalmente sem glúten, característica que, na avaliação da empresa, amplia seu potencial no mercado de alimentos voltados a consumidores com restrição à proteína.

A empreitada contou com a receita do cervejeiro paulistano Alexandre Xerxenevsky, da Xcraft Beer, que utiliza sorgo produzido no interior de São Paulo. A bebida é inspirada no estilo American Pale Ale.

cerveja de sorgo
Cerveja de sorgo foi produzida para mostrar viabilidade econômica de usos “premium” do grão Divulgação/Advanta

Segundo o mestre cervejeiro, o principal desafio foi trabalhar com o grão in natura, sem acesso à versão maltada, que facilitaria a fabricação. A gente não tem o malte de sorgo que facilita o trabalho. Então, tem que fazer todo o processo do grão in natura dentro da cervejaria, explica à CNN.

A fabricação exige etapas para tornar o amido disponível e, depois, convertê-lo em açúcares que possam ser utilizados na produção da cerveja. O processo envolve gelatinização e ação de enzimas, o que o torna mais complexo em comparação com o uso de maltes convencionais.

A receita utiliza aproximadamente 70 quilos de sorgo para produzir 300 litros de cerveja. Embora o cereal seja uma matéria-prima barata, segundo Alexandre, o processamento adicional aumenta o gasto energético da cervejaria e reduz a vantagem de custo do ingrediente.

Ele observa que despesas como lata, rótulo e impostos permanecem, independentemente do cereal utilizado.

A proposta foi desenvolver uma bebida contemporânea com um ingrediente que já tem tradição na alimentação humana em países africanos, inclusive na fabricação de cervejas, segundo o mestre cervejeiro.

No paladar, Alexandre descreve um sabor de cereal que lembra quinoa. Um gosto agradável, mas diferente do que a gente está acostumado, resume. Ele também vê a possibilidade de aproveitar o material remanescente da produção em preparações culinárias, como quibes uma ideia que ainda dependeria de desenvolvimento.

Para o cervejeiro, experiências como essa ajudam a construir alternativas à cevada e podem abrir oportunidades para o sorgo brasileiro. Um dos caminhos, avalia, seria ampliar o processamento do cereal pelas maltarias, facilitando seu uso na indústria.

Cervejeiro paulistano Alexandre Xerxenevsky, da Xcraft Beer
Cervejeiro paulistano Alexandre Xerxenevsky, da Xcraft Beer CNN

No projeto, a Advanta forneceu a matéria-prima. Coletamos um volume de grãos produzidos a partir de híbridos desenvolvidos com sementes da Advanta e, junto com a cervejaria, apresentamos a ideia e fornecemos a matéria-prima para que eles pudessem desenvolver uma receita, explica Lima.

Segundo a empresa, a cerveja tem aproximadamente 50% de sorgo em sua composição e é considerada um produto sem glúten.

Foi um projeto que desenvolvemos com o objetivo de fomentar o cultivo dessa cultura no país. Para produzir essa bebida de sorgo, é possível comprar grãos disponíveis em qualquer região do país onde haja cultivo, destaca.

O trabalho da Advanta, no entanto, continua concentrado na comercialização de sementes. A empresa também trouxe tecnologias para a cultura, incluindo híbridos com tolerância a herbicidas, que ajudam os agricultores no manejo das lavouras.

O gerente de marketing afirma que a companhia acredita no potencial desse mercado e trabalha para contribuir com seu desenvolvimento.

O mercado de sorgo cresceu bastante nos últimos anos. Há quatro ou cinco anos, prevíamos uma área de cultivo entre 800 mil e 900 mil hectares. Hoje, de acordo com o mapeamento interno da empresa, estamos perto de atingir 2,5 milhões de hectares, pontua.

Entre as possibilidades de expansão está o uso do cereal como matéria-prima para a produção de etanol, inclusive por indústrias que processam milho, principalmente na região do Cerrado.

Por todo o crescimento e abertura de mercados, acreditamos que o sorgo tem tudo para crescer ainda mais. Uma das nossas iniciativas foi justamente mostrar os usos do sorgo além de suas aplicações tradicionais, como a produção de etanol e a exportação para atender à demanda por alimentação animal, mas também no consumo humano, destaca Lima.

Além das bebidas, a Advanta Seeds prevê mais espaço para o sorgo no mercado de alimentos. O grão pode ser utilizado como ingrediente na fabricação de diversos produtos, de biscoitos, farinhas e bolos até cerveja. A cerveja foi uma ideia que tivemos justamente para demonstrar o potencial dessa cultura, reitera.

Produção e área plantada

A produção brasileira de sorgo mais que triplicou em cinco anos, passando de 2,08 milhões de toneladas na safra 2020/21 para 7,37 milhões em 2025/26, segundo dados da série histórica da Conab. No período, o avanço foi de 253,6%.

A área plantada cresceu 150,9%, para 2,17 milhões de hectares. Para 2026/27, a companhia projeta uma colheita de 8,03 milhões de toneladas, alta de 9% sobre o ciclo anterior.

A expansão ocorre após uma temporada em que a cultura ocupou áreas onde o milho segunda safra não pôde ser semeado dentro da janela adequada.

Segundo a companhia, em 2025/26, o aumento da área cultivada compensou a queda da produtividade provocada pela redução e pela irregularidade das chuvas, garantindo uma colheita maior.

O avanço nos últimos anos ocorreu principalmente pela expansão do plantio: a área quase dobrou entre 2021/22 e 2025/26. A produtividade também aumentou nesse intervalo, passando de 2.760 para 3.396 quilos por hectare, ganho de 23%. Houve, porém, oscilações: a produção caiu em 2023/24, de acordo com a Conab.

Segundo a mais recente estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para 2026, o sorgo deve apresentar resultado positivo, com produção estimada em 6 milhões de toneladas, alta de 11% na comparação anual.

Mercado internacional

O Brasil também passou a contar com acesso ao mercado chinês para o sorgo. Em setembro de 2025, a Reuters noticiou que a China havia autorizado a importação do grão brasileiro, mas ainda era necessário concluir os registros de produtores e exportadores habilitados para viabilizar os embarques.

Segundo Lima, volumes expressivos foram exportados para o mercado chinês em agosto e setembro deste ano, ampliando uma pauta de comércio já marcada pela soja e pelo milho.

A elevada demanda por sorgo, principalmente de mercados como a China, aumenta a concorrência por área de plantio. Na avaliação da StoneX, o custo elevado de produção do milho e a oferta mais enxuta do sorgo favorecem o cultivo deste último em 2026/27. A disputa por espaço nas lavouras pode ter reflexos na disponibilidade de milho no mercado internacional.

A produção de sorgo tem crescido e deve continuar crescendo em 2026/27. O Brasil tem consumido bastante, principalmente em plantas de etanol. O consumo global também impulsiona as exportações. Entre agosto e setembro exportamos mais do que havíamos exportado em 20 anos. A área plantada deve aumentar e inclusive pressionar a área plantada de milho, ressalta Raphael Bulascoschi, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.

Conflito no Oriente Médio ameaça agricultores brasileiros

 

Fonte: www.cnnbrasil.com.br

Compartilhar