Pular para o conteúdo
No ar
Ao vivo agora 3CLIMAS CULTURA RÁDIO JORNAL TV
Tocando agora 3CLIMAS CULTURA ao vivo
Fale no WhatsApp

Brasileiros vivem 'ressaca eleitoral': como zerar os algoritmos nas redes?

A eleição acabou, mas parece que a campanha ainda não saiu das redes sociais. Você abre o Instagram pra ver um vídeo engraçado, uma receita ou até um cachorrinho, mas logo aparece mais uma publicação sobre política. Depois de semanas acompanhando pesquisas, debates, notícias e discussões, tem muita gente querendo simplesmente mudar de assunto. É a chamada ressaca eleitoral. Depois de um período tão intenso, o desafio agora é tentar voltar à rotina e deixar um pouco de lado o cl


A eleição acabou, mas parece que a campanha ainda não saiu das redes sociais. Você abre o Instagram pra ver um vídeo engraçado, uma receita ou até um cachorrinho, mas logo aparece mais uma publicação sobre política. Depois de semanas acompanhando pesquisas, debates, notícias e discussões, tem muita gente querendo simplesmente mudar de assunto. É a chamada ressaca eleitoral. Depois de um período tão intenso, o desafio agora é tentar voltar à rotina e deixar um pouco de lado o clima de disputa. O arquiteto Bruno Oliveira foi um dos que mergulharam de cabeça na campanha. E conta que nem sempre foi fácil lidar com tudo o que veio junto com esse envolvimento. 'Participei de algumas manifestações pessoalmente, mas meu engajamento foi, digamos que grande parte, virtual mesmo. Tentava conversar com as pessoas mais próximas, pessoas que eu percebi que estavam em dúvida do voto. Mas às vezes a conversa é bem difícil, né? Tive algumas chateações, principalmente com pessoas muito próximas, que pensam diferente de mim, não só por pensar diferente de mim, mas por não enxergar meu posicionamento. Foi um período bastante angustiante.' Não faltou espaço pra eleições na rotina dos brasileiros. Uma pesquisa do Datafolha, feita em setembro, mostrou que 42% dos eleitores estavam acompanhando mais notícias sobre a disputa presidencial do que em 2022. No caso da pedagoga aposentada Márcia Almeida, a tensão teve reflexos até na saúde. Ela, que antes usava as redes sociais pra compartilhar assuntos do dia a dia, passou a publicar conteúdos políticos com frequência. E conta que, em meio a esse envolvimento, diminuiu o contato com amigos que pensam diferente. 'Antes das eleições, eu publicava muita coisa. Receitas, artesanatos, cuidados com os animais, decoração... mas depois as coisas ficaram bem intensas. Isso me causou um grande problema emocional, sim. Pressão arterial oscilando, um nervosismo absurdo porque já estava muito tóxico. Tenho uma amiga da época da faculdade, e a gente está um pouco distante porque estávamos em lados diferentes. É difícil até entender isso emocionalmente e aceitar' E quando uma divergência política acaba abalando uma amizade de tantos anos, como fazer para reconstruir essa relação? O psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da USP, explica que essa reaproximação exige mais do que simplesmente esperar a tensão passar. 'Reconciliações são parte do processo político. Saber ganhar e saber perder é decisivo. Uma reconciliação passa por esse gesto fundamental, simbólico, que é poder pedir desculpas, né? Poder dizer: me excedi, poder reparar aquele xingamento, aquele distrato que a gente viu ganhar quase todas as conversas. Agora, aquele que não sabe perder não vai saber pedir desculpas. A reaproximação começa pelo recuo. Às vezes, o recuo começa pelo silêncio, mas com presença. Não vai adiantar simplesmente tomar distância, né? Precisa de uma atitude ativa de reparação.' O Bruno Oliveira, que a gente ouviu no começo da reportagem, disse que depois de tanto envolvimento com a política, decidiu diminuir o uso das redes. 'Desde a eleição mesmo dei uma afastada das redes sociais, estou tentando não ficar vendo muita coisa, porque eu estava muito frenético, até no meu trabalho também. Está meio difícil porque tem algumas coisas ainda acontecendo, né? Mas minha intenção é tentar ficar um pouco quieto, voltar ao que eu era antes, dar uma desintoxicada das redes sociais.' Mas como fazer essa desintoxicação quando o próprio Instagram continua mostrando política o tempo inteiro? Será que dá pra "destreinar" o algoritmo? No Instagram, uma alternativa é redefinir as recomendações de conteúdo, que passam a ser ajustadas de novo conforme as interações do usuário. Mas existe também um recurso específico pra quem quer diminuir as publicações sobre política, como explicou o editor do TechTudo, William Guido. 'O recurso 'conteúdo político' foi lançado no início do ano passado, mas ele ainda está ativo, em que para a pessoa desativar aquilo que vai ser sugerido de assunto político, ela precisa tocar lá na fotinha dela e nos três risquinhos na parte de cima, que é a parte de 'configurações e atividade'. Ela vai procurar por preferência de conteúdo. Vai ter uma opção chamada conteúdo político. Ela consegue acionar uma chavinha ou desativar essa chavinha que diz respeito a ela ter exibição ou não de conteúdos relacionados à política.' Participar do debate público não significa precisar viver em campanha o tempo inteiro. Esse é o consenso dos ouvidos nessa reportagem: continuar acompanhando o que acontece no país, mas sem deixar que cada conversa se transforme numa nova disputa.

Fonte: cbn.globo.com

Compartilhar