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Bolsa ainda pode estar barata: efeito mola ajuda a explicar potencial

BTG Pactual vê espaço para reavaliação das ações; baixa alocação estrangeira e perspectiva de queda dos juros podem alimentar o movimento

Mesmo depois da forte alta do Ibovespa, a Bolsa brasileira ainda pode estar barata quando comparada à relação histórica entre o preço das ações e os lucros das empresas.

O BTG Pactual calcula que as ações brasileiras – excluindo Petrobras e Vale – são negociadas a dez vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, segundo relatório publicado em 5 de outubro. A referência está abaixo tanto da média dos últimos dez anos (de 11,1 vezes), quanto da média histórica mais ampla (11,9 vezes).

Na fotografia daquele momento, uma volta a essas médias representaria potencial de valorização entre 11% e 20%. Os percentuais refletem as condições da data do relatório, mas ajudam a dimensionar o desconto identificado pelo banco.

Assim, a expectativa é de que o movimento de valorização tenha espaço para continuar, principalmente se ganhar força a perspectiva de queda dos juros.

Jerson Zanlorenzi, head da mesa de derivativos do BTG Pactual, descreve essa reação como um efeito mola: os juros elevados mantiveram o mercado comprimido por cerca de cinco anos, de modo que só a perspectiva de alívio já provoca uma resposta intensa nas cotações.

“Efeito mola”

A queda dos juros reais oferecidos pelas NTN-Bs (títulos públicos corrigidos pela inflação) é justamente um dos principais motores da compra de ações pelo investidor institucional – que tem maior capacidade de alocação -, segundo Zanlorenzi. Quando essa remuneração recua, a Bolsa ganha atratividade em relação à renda fixa.

Juros reais menores também diminuem o gasto financeiro das empresas, aumentando o valor de lucros futuros e favorecendo suas avaliações.

Há ainda combustível para a alta na composição das carteiras. O analista do BTG afirma que os estrangeiros continuam com baixa alocação na Bolsa brasileira, o que abre espaço para novas compras caso aumente a confiança no cenário econômico.

Entre os investidores locais, uma parcela dos recursos permanece em aplicações com liquidez diária e remuneração atrelada à Selic ou ao CDI. Com a mudança das perspectivas para os juros, as ações passam a disputar esse dinheiro em condições mais favoráveis.

A migração pode começar antes de um corte efetivo da Selic, porque o mercado antecipa a mudança na rentabilidade relativa dos investimentos.

Não obstante, chamou atenção de Zanlorenzi o interesse e a procura ativa por parte dos clientes ao banco em meio à alta do Ibovespa na última semana. Após o resultado do primeiro turno colocar Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pelo Palácio do Planalto, o principal índice do mercado acionário brasileiro encerrou o período em alta de mais de 8%.

Trazendo novamente a metáfora do “efeito mola”, esta é a reação de um mercado que estava pouco posicionado em renda variável e encontrou uma oportunidade para diversificar suas opções, explica o analista.

Porém, após a alta expressiva, Zanlorenzi vê o Ibovespa “andando de lado” até a definição concreta das eleições no segundo turno, reagindo às novas pesquisas e ações dos candidatos. A Bolsa já viveu isso nesta terça-feira (13), quando fechou em queda de 1,04%, a 206.887,52 pontos, num dia de ajustes técnicos.

Fiscal equilibrado e reavaliação

Essa leitura se conecta à tese do relatório do BTG. O banco associa a possibilidade de reavaliação das ações à expectativa de medidas mais firmes para enfrentar o desequilíbrio fiscal, em um cenário de vitória da oposição no segundo turno.

A aposta é que uma melhora na percepção sobre as contas públicas permita reduzir os juros exigidos pelos investidores e sustente preços mais altos na Bolsa.

As empresas mais endividadas e as chamadas small caps – ações de empresas com menor valor de mercado na Bolsa e que, segundo o head de derivativos do BTG, viveram a melhor semana da história nos últimos dias – aparecem entre as possíveis beneficiárias.

Na avaliação de Zanlorenzi, a perspectiva de continuidade da queda dos juros nominais nos próximos meses pode tornar essas companhias mais atrativas.

Quando o custo da dívida diminui, elas podem ter alívio nas despesas financeiras e recuperação dos lucros, embora a velocidade desse efeito dependa dos indexadores e dos prazos de cada financiamento. “Juro reduzido aumenta lucro na veia”, enfatiza o analista.

O relatório também destaca varejistas, incorporadoras voltadas à média e alta renda e empresas ligadas ao mercado de capitais. São negócios que podem ganhar com crédito mais barato, melhora da demanda e maior disposição para investir.

Outro fator capaz de intensificar a reação é a recompra de ações por investidores que apostavam na queda dos preços. O BTG aponta que papéis com posições vendidas elevadas podem registrar recuperações expressivas quando essas operações são encerradas.

No meio do caminho…

A sustentação da alta dependerá de a expectativa de melhora fiscal se transformar em sinais concretos. Mas há também um fator externo que pode estragar a festa: os juros norte-americanos.

Se as taxas dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos subirem, a remuneração maior dos ativos em dólar pode mudar a dinâmica dos fluxos globais e reduzir o apetite por mercados como o brasileiro.

Esse movimento também pode pressionar o câmbio e os juros de longo prazo no Brasil, dificultando o cenário de taxas mais baixas que hoje sustenta o entusiasmo com a Bolsa.

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Fonte: www.cnnbrasil.com.br

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