Análise: sem William Bonner, audiência do principal telejornal do país é colocada em discussão e Globo prepara mudanças
Rui Barbosa dizia que a imprensa é a vista da nação. Às sombras do alcance do Jornal Nacional, da TV Globo, este telejornal seria o par de óculos de um país que, por décadas, aprendeu a se informar na hora anterior à sua novela das 9. Pelo menos foi assim até pouco tempo. O Jornal Nacional vem enfrentando um desafio que vai além da audiência: a perda de temperatura jornalística no debate público. O JN já não ocupa, com a mesma intensidade, o lugar de protagonista de grandes coberturas que teve em outros momentos da história da TV brasileira.
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Na gestão de Cristina Souza Cruz, iniciada em 2025, o JN está mais comedido alguns o classificam de morno, à luz de como se deu a cobertura das recentes eleições. Essa perda de calor tem a ver com várias questões, que vão além da polarização da audiência (que segue dividida nos extremos): o ritmo da política mudou, o consumo de informação mudou e o telejornal parece ter dificuldade para acompanhar essa transformação.
O assunto, aliás, segue animado no banco das universidades de Comunicação. Entre os fatores que ajudam a entender tal fenômeno, as redes sociais passam pelo argumento central. Se antes o JN tinha papel de destaque ao apresentar ao Brasil os acontecimentos políticos do dia, é verdade que hoje, quando o telejornal começa, boa parte dessas informações já circulou muitas horas antes nas redes sociais, nos portais de notícias, nos canais de notícias e nos grupos de mensagens. O JN deixou de ser necessariamente o lugar da descoberta da notícia como era até a primeira década dos anos 2000. Passou a ser o da recapitulação do que o público já acompanhou aos montes mais cedo. Aí mora o perigo.
Múltiplas telas
Agora, a capacidade de estabelecer o controle da agenda pública está mais fragmentada. São outros os agentes: influenciadores políticos, comentaristas independentes, canais de YouTube, podcasts, TVs on demand e veículos digitais disputam a interpretação dos acontecimentos em tempo real. O principal telejornal da Globo ainda tem poder de repercussão, sim, mas já não detém o monopólio da narrativa em tempos de engajamento e likes.
E não menos significativo nessa frieza constatada no ar: a crise de identidade depois da saída de William Bonner. Ao deixar a famosa bancada no final de 2025, Bonner encerrou um ciclo de quase três décadas. Figura que concentrava autoridade editorial, familiaridade com o público e capacidade de transformar determinadas edições em acontecimentos televisivos na linha histórica, deixou um vácuo difícil de se preencher de um boa noite para outro.
Vindo do Jornal Hoje, mais informal, César Tralli representa uma nova etapa, mas a transição não produziu uma mudança perceptível de linguagem capaz de renovar a relação do JN com o público. Até aqui, o telejornal não soube aproveitar a mudança para repensar seu formato, sua narrativa e a maneira de cobrir a política nacional.
É no mínimo curioso, para citar um exemplo recente, que o Jornal Nacional não tenha mirado seu olhar aguçado sobre a disputa eleitoral para o Congresso brasileiro como faz agora em relação ao legislativo dos Estados Unidos, com cobertura em várias cidades para entender o eleitorado americano diante de republicanos e democratas. O telespectador fica na sensação de que nosso Congresso é menos impactante para o seu dia a dia do que a atual disputa no Maine.
Mas, é bom frisar, essa perda de força não é apenas uma percepção sobre linguagem e abordagem de conteúdo. Há indicadores de audiência que merecem atenção há algum tempo.
Mudanças à vista
Segundo levantamento recente de audiência, o JN registrou média de 21,4 pontos durante a cobertura eleitoral de agosto a outubro, contra 24,4 pontos no período equivalente da eleição de 2022. O telejornal, entretanto, manteve liderança expressiva sobre os concorrentes. Ou seja, trata-se de um produto que perdeu parte de sua capacidade de mobilização, ainda que não tenha um concorrente direto na TV aberta. Talvez a concorrência esteja tão fragmentada, que seja difícil apontar apenas uma válvula de escape desses telespectadores.
Visando a um sacode nessa realidade, a própria Globo avista mudanças em seu quadro de apresentadores nacionais, para dar oportunidades a quem anda escondido em produções locais e que mereceriam mais espaço. É certo que é preciso mexer. Mas todo cuidado é pouco. Não se trata de um problema pontual sobre quem ocupa uma ou outra bancada.
O Jornal Nacional deve, pelos próximos anos, continuar sendo o principal telejornal do país. Porém, sem se manter hegemônico como principal lugar onde o país se vê no espelho. E essa é uma ameaça mais séria do que a própria queda de audiência. O telespectador não tem mais um espelho plano e único. Ele se adaptou a um prisma. As opções tornam a experiência do consumo de notícias mais versátil e dinâmico. Dificilmente haverá retrocesso nesse sentido. O boa noite vindo de lá passou a chegar depois de outros cantos.
Fonte: veja.abril.com.br