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A outra face da abertura de Milei: a explosão do contrabando na Argentina

Com menos barreiras às importações e um peso mais forte, produtos que entram ilegalmente ganham espaço

A abertura da economia argentina promovida por Javier Milei começa a produzir um efeito colateral que preocupa empresários, fabricantes e autoridades: o avanço do comércio ilegal de produtos importados.

Celulares, cervejas, pneus, roupas, bebidas alcoólicas, cigarros, calçados e até cosméticos estão entre os produtos que passaram a circular com maior presença fora dos canais formais.

O problema deixou de ser tratado apenas como uma questão de fronteira e passou a ocupar o centro do debate sobre a competitividade da indústria argentina.

A dimensão do fenômeno chamou a atenção da imprensa econômica do país.

Segundo levantamento citado por La Nación e Infobae, o comércio ilegal pode equivaler a cerca de 5% do Produto Interno Bruto argentino e provocar uma perda de aproximadamente 2,3 bilhões de dólares por ano em arrecadação.

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O estudo aponta celulares, cigarros, têxteis e cerveja entre os segmentos mais atingidos.

O caso dos celulares é particularmente expressivo.

A associação que reúne fabricantes de eletrônicos na Argentina estima que cerca de um em cada três aparelhos conectados às redes do país tenha entrado de maneira irregular.

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A participação do comércio ilegal, historicamente estimada entre 5% e 7% do mercado, teria chegado a aproximadamente 30% nos últimos dois anos.

O paradoxo do peso forte

O avanço do contrabando tem uma relação pouco intuitiva com uma das principais conquistas econômicas reivindicadas pelo governo Milei: a estabilização da moeda.

Durante anos, a Argentina conviveu com uma enorme diferença entre o câmbio oficial e o mercado paralelo.

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Para um importador disposto a operar ilegalmente, isso funcionava como uma barreira adicional. Comprar dólares no mercado informal encarecia a operação e reduzia a vantagem de trazer mercadorias sem pagar impostos.

A convergência dos diferentes mercados cambiais mudou essa conta.

Com um peso relativamente mais forte e maior facilidade para acessar moeda estrangeira, ficou mais barato abastecer o mercado argentino com mercadorias que entram por fora da Aduana.

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É um dos paradoxos da nova economia argentina: uma política que reduz distorções cambiais e abre o comércio pode, ao mesmo tempo, aumentar a rentabilidade de determinadas operações ilegais.

É justamente essa leitura que aparece no debate empresarial argentino.

Martín Rappallini, presidente da União Industrial Argentina, resumiu o problema ao afirmar que a unificação cambial foi positiva para a economia, mas exige fronteiras mais fortes para impedir o contrabando.

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A fronteira é só parte do problema

O fenômeno também mudou de escala.

Durante muito tempo, contrabando na Argentina esteve associado principalmente às regiões de fronteira, especialmente aos limites com Paraguai, Bolívia e Brasil. A região de Misiones, por exemplo, aparece repetidamente nas operações das autoridades.

Em junho, a ARCA, a agência argentina responsável pela arrecadação e controle aduaneiro, apreendeu dezenas de milhares de latas e garrafas de bebidas que entraram ilegalmente por cidades fronteiriças como Puerto Iguazú e Bernardo de Irigoyen.

Em setembro, a Aduana passou a intensificar também a fiscalização dentro das cidades. Operações em Buenos Aires, Córdoba, Paraná, Rosario, Mar del Plata e Posadas apreenderam mais de 67 milhões de pesos em bebidas alcoólicas importadas sem documentação.

Outro exemplo ocorreu em Buenos Aires, onde uma operação encontrou mais de 8 mil pares de tênis e mais de mil produtos falsificados em uma galeria comercial. A mercadoria foi avaliada em aproximadamente 550 milhões de pesos.

Uma investigação também levou à apreensão de mercadorias estimadas em 1,5 bilhão de pesos em depósitos de Puerto Iguazú e da Grande Buenos Aires. A operação identificou produtos como pneus, calçados, aparelhos de ar-condicionado, bicicletas e artigos para casa.

O diagnóstico mais recente do setor privado argentino é que o contrabando está se espalhando tanto para novos produtos quanto para novas regiões.

O comércio eletrônico abriu outra porta

A transformação não acontece apenas nas fronteiras físicas.

O governo Milei vem facilitando as compras internacionais pela internet como parte de sua estratégia de abertura econômica.

Em julho, a Argentina igualou as regras para compras feitas por meio do Correo Argentino e de empresas de courier.

Atualmente, pessoas físicas podem receber encomendas de até 3 mil dólares por envio, desde que atendam às condições do regime.

Para os cinco primeiros envios anuais, há isenção de direitos de importação e da taxa estatística sobre os primeiros 400 dólares, permanecendo outros tributos quando aplicáveis. A mercadoria, porém, não pode ter finalidade comercial.

A mudança é coerente com a filosofia econômica de Milei: reduzir burocracia, facilitar o acesso do consumidor argentino a produtos estrangeiros e diminuir a proteção artificial do mercado doméstico.

O problema aparece quando mecanismos criados para consumidores passam a ser utilizados para abastecer atividades comerciais.

Empresários e analistas ouvidos pela imprensa argentina afirmam que pequenos negócios podem utilizar plataformas internacionais para comprar mercadorias destinadas à revenda, aproveitando regras desenhadas para consumo pessoal.

O comércio eletrônico amplia, assim, a capacidade de distribuir produtos importados sem que toda a cadeia passe pelos mesmos custos e controles impostos às empresas formais.

O conflito com a indústria

Esse é o ponto politicamente mais delicado para Milei.

A lógica do governo é que a economia argentina ficou fechada durante décadas, protegendo empresas pouco competitivas e obrigando consumidores a pagar mais caro.

Reduzir tarifas e barreiras deveria aumentar a concorrência, baixar preços e obrigar empresas nacionais a se tornarem mais eficientes.

O próprio presidente já defendeu publicamente essa visão: empresas que não conseguirem competir tendem a desaparecer, liberando trabalhadores e recursos para setores considerados mais produtivos.

O contrabando, porém, introduz uma distorção diferente.

Uma empresa argentina que importa legalmente precisa pagar impostos, cumprir normas, manter funcionários registrados e seguir exigências regulatórias.

Um concorrente que compra a mesma mercadoria no exterior e a coloca no mercado sem recolher os mesmos tributos parte de uma posição artificialmente mais barata.

A crítica, portanto, não é necessariamente uma defesa do antigo protecionismo.

Esse é justamente o dilema identificado pela imprensa econômica argentina.

Empresários que apoiam a abertura comercial passaram a pedir ao governo que preserve mecanismos capazes de impedir que a concorrência formal seja substituída por mercadorias que simplesmente escaparam da tributação.

A conta para o governo

O problema também atinge uma área especialmente sensível para Milei, as contas públicas.

O levantamento citado pela imprensa argentina estima que o comércio ilegal tenha provocado uma perda de aproximadamente 2,3 bilhões de dólares em receitas em 2025 apenas em determinados segmentos.

La Nación calculou que esse valor seria equivalente a uma parcela significativa de outras receitas tributárias importantes do país.

A questão ganha peso porque o equilíbrio fiscal é um dos pilares da política econômica de Milei.

Se uma parcela crescente do consumo migra para produtos que não recolhem integralmente os impostos devidos, a abertura comercial pode gerar uma consequência inesperada. Reduzir parte da arrecadação justamente quando o governo tenta manter as contas públicas no azul.

Mas há uma tensão adicional.

O combate ao contrabando exige uma Aduana mais eficiente, controles de fronteira e fiscalização. Ao mesmo tempo, o projeto de Milei procura justamente reduzir a burocracia que historicamente cercou o comércio exterior argentino.

A imprensa argentina vem acompanhando essa discussão como uma espécie de disputa sobre o desenho da nova Aduana.

O setor privado reclama de fiscalização insuficiente, enquanto o governo teme que pedidos por controles mais rígidos sejam, na prática, uma tentativa de reconstruir a economia protegida que Milei prometeu desmontar.

O risco de confundir abertura com ausência de controle

É aí que o caso argentino ganha importância para outros países da região.

A experiência mostra que liberalizar o comércio não significa simplesmente retirar barreiras.

É preciso distinguir entre a concorrência legítima de um produto importado e uma mercadoria que chega ao consumidor sem pagar os mesmos impostos, sem cumprir normas técnicas ou sem passar pelos controles sanitários.

A Argentina está tentando fazer essa transição em velocidade elevada.

Os números oficiais do comércio exterior mostram que as importações ainda não explodiram.

Pelo contrário: recuaram 2,6% nos primeiros oito meses de 2026. Ao mesmo tempo, as exportações avançaram 21%, e o país acumulou superávit comercial de 18 bilhões de dólares no período.

Isso ajuda a separar dois fenômenos que costumam ser confundidos: a Argentina está, de fato, abrindo sua economia, mas o avanço do contrabando não pode ser medido simplesmente pela estatística oficial de importações.

Parte justamente da questão está naquilo que não aparece nessas estatísticas.

É o produto que atravessa o rio, a fronteira terrestre, o aeroporto ou uma encomenda internacional sem passar pelo circuito normal de tributação. É também a mercadoria que chega legalmente a uma pessoa física e depois acaba sendo revendida.

O desafio de Milei, portanto, não é apenas decidir se a Argentina deve ser mais aberta. Essa decisão já está tomada.

A questão agora é saber como construir uma economia mais aberta sem transformar a diferença entre o mercado formal e o ilegal em uma vantagem para quem opera à margem das regras.

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Fonte: veja.abril.com.br

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