O show tem que continuar. Em 50 anos de Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, essa tem sido a tônica. Ao longo de sua história, o festival criado em plena ditadura militar teve de driblar censura e repressão, confisco do Plano Collor, pandemia, e se desdobrar por patrocínios. Fundada pelo jornalista e cineasta Leon Cakoff, a primeira Mostra aconteceu no MASP em 1977, comemorando 30 anos do museu. O lema "O público é o júri" trazia um gostinho de democracia para um povo que não p

O show tem que continuar. Em 50 anos de Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, essa tem sido a tônica. Ao longo de sua história, o festival criado em plena ditadura militar teve de driblar censura e repressão, confisco do Plano Collor, pandemia, e se desdobrar por patrocínios. Fundada pelo jornalista e cineasta Leon Cakoff, a primeira Mostra aconteceu no MASP em 1977, comemorando 30 anos do museu. O lema "O público é o júri" trazia um gostinho de democracia para um povo que não podia escolher seus governantes, mas votava quem vencia o festival. Além de títulos nacionais, Cakoff exibiu produções de países fora do radar dos cinemas brasileiros, como China, Iugoslávia e Tchecoslováquia. Criada na ditadura, Mostra de Cinema de SP completa 50 anos com grandes filmes e diretores internacionais Desde então, a Mostra se consolidou como um marco cultural da cidade e uma janela para o mundo (como declarou Cakoff), seja antecipando títulos de peso do cinema contemporâneo mundial ou exibindo restaurações de obras incontornáveis de outros tempos. O festival ainda traz grandes nomes nacionais e internacionais da indústria para debates, sessões comentadas e bate-papo com os cinéfilos. Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Quentin Tarantino, Abbas Kiarostami, Manoel de Oliveira, Francis Ford Coppola e Jafar Panahi são alguns dos cineastas que ajudaram a construir esses 50 anos. Após a morte de Cakoff em 2011, a Mostra foi encabeçada por sua viúva, a produtora e cineasta Renata de Almeida, que já participava da organização a seu lado desde a 14º edição, em 1990. Jonas de Almeida Chadarevian, filho do casal, atua hoje como um dos produtores executivos e integra a comissão de colaboradores para a seleção de filmes da Mostra. Nesta 50º edição, que começa no dia 15 e vai até 29 de outubro, o diretor americano James Gray (Ad Astra, Armageddon Time, Era Uma Vez Em Nova York) apresenta seu filme Tigre de Papel, destaque em Cannes. Também virão a São Paulo o produtor português Paulo Branco, o diretor indiano S. S. Rajamouli e o rapper e cineasta americano Boots Riley. Confira a seleção de filmes. Outras ações comemorativas são o lançamento do Acervo, que reúne 50 anos de história da Mostra e informações sobre mais de 12 mil filmes que passaram pelo festival, e a exposição Tempo e Movimento: Os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Solar Fábio Prado referência à frase dita pela artista plástica Tomie Ohtake quando apresentava a arte da 17ª Mostra: Para mim cinema é isso, tempo e movimento. Em conversa na segunda (5), Renata de Almeida celebrou o festival e sua história, falou sobre novos paradigmas para o cinema e tecnologia, laços criados entre São Paulo e o mundo, e perspectivas para o futuro. Ela lança neste mês o livro Antes Que Eu Me Esqueça (Cosac), com suas memórias e bastidores da Mostra. Nesses mais de 30 anos em que você vem trabalhando para colocar a Mostra de pé, quais foram os grandes marcos? Renata de Almeida: Teve tanta coisa que eu até resolvi escrever um livro. A Mostra é cheia de histórias de encontros. A primeira que eu fiz integralmente foi a 14º, durante o Plano Collor, então começou de uma forma bem desafiadora. O país todo estava muito descontente, em uma ressaca, porque era a primeira eleição para presidente que a gente teve e foi aquela decepção. Foi um pouco difícil, mas a Mostra aconteceu, e mesmo assim foi uma boa seleção. Aliás, a Mostra sempre aconteceu, apesar de todas as dificuldades, porque eu tenho a impressão de que, se deixar de fazer por um ano, você não vai voltar a fazer. Pode voltar a fazer um outro festival, uma outra coisa, mas eu acho que já não vai ser a Mostra, com essa continuidade. E a Mostra é elástica: tem anos em que ela é muito grande, tem anos que ela é menor, e um grande desafio é entender o tamanho que ela pode ter, que precisa ser do tamanho do orçamento. Algumas vezes a gente já ficou no vermelho, mas tivemos grandes anos. Em 1993, na 17ª Mostra, veio o Jonas Mekas, que além de ser um grande diretor, é um programador muito responsável pelo cinema independente americano. Teve o Quentin Tarantino em 1992, que veio com o primeiro longa-metragem dele, Cães de Aluguel. As pessoas já sabiam um pouco do filme, mas ninguém tinha ideia, no momento, da dimensão que o Quentin tomaria. E ele andou por São Paulo, para cima e para baixo. Ele e a Maria de Medeiros ficaram muito amigos aqui, e depois ela atuou no Pulp Fiction. Tarantino era muito tranquilo. Na primeira sessão de Cães de Aluguel, eu me lembro de ele dizer: Ah, por mim pode acontecer qualquer coisa, eu estou acostumado. Porque eu estava em Sundance, e eu vi meu filme queimando na tela (risos). Renata de Almeida, Maria de Medeiros e Quentin Tarantino na 16º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1992. Divulgação/Mostra Renata de Almeida e Maria de Medeiros na 18º Mostra. Divulgação/Mostra Tem outra história que eu acho bem bacana: na 23º Mostra, tínhamos no júri Cédomir Kolar, Marco Muller e Marion Hänsel. E então o Cédomir Kolar disse a eles que tinha um roteiro ótimo, e os dois entraram no filme, que nasceu do encontro. Terra de Ninguém ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Paolo Sorrentino também esteve aqui em São Paulo com Um Homem a Mais. A gente saía e ele nunca estava, dizia que havia tido uma ideia e que estava escrevendo. Foi assim que ele fez, no hall do Crowne Plaza, o roteiro para o seu próximo filme. Depois, esse filme foi para Cannes. Acho que a 19º Mostra foi uma das maiores, e a gente não estava muito preparado. Vieram o Pedro Almodóvar, a Rossy de Palma, a Marisa Paredes, o Manoel de Oliveira, o Gabriel Figueroa Foi muita gente. E o Walter Salles (diretor de Ainda Estou Aqui) estava no Júri. Não sei que conjunção astrológica teve aquele ano, e a gente nem tinha estrutura na 19º para tanta gente, porque esses nomes chamavam muito público. Na saída de um almoço, a Anne Parillaud, que é uma atriz francesa, me perguntou quem era aquele moço que estava trabalhando na produção da Mostra. Aí eu olho e está o Walter Salles colocando os convidados dentro do táxi e pedindo para o motorista levar para o Maksoud Plaza (risos). Foi a passagem de uma Mostra muito caseira que começou a se profissionalizar, o que coincidiu um pouco com as leis de incentivo, que foi essa possibilidade de crescer. E na pandemia foi bem complicado, certo? Renata de Almeida: Foi, mas nós fizemos uma plataforma da Mostra para exibir os filmes pela internet, e esse lado foi bacana, porque a plataforma era muito boa e para todo o Brasil. Mas a gente não se conformou em fazer a Mostra só online. A abertura foi no drive-in, no Memorial da América Latina, e o encerramento no Parque Ibirapuera com distanciamento e máscaras, foi uma cerimônia muito bonita. Olhando as fotos, parece algo tão irreal. Foi tenso e um desafio. Era uma época em que todo mundo estava muito temeroso. Mas foi importante e aconteceu, com muita presença do público online. Teve prêmio para os funcionários da Cinemateca, teve muita coisa. Exibição drive-in na 44ª Mostra de Cinema em São Paulo, em 2020. Divulgação/Mostra Exibição com distanciamento e máscaras na 44ª Mostra de Cinema em São Paulo (2020), no Parque do Ibirpuera. Divulgação/Mostra É uma marca da Mostra, continuar acontecendo apesar das dificuldades. Renata de Almeida: Por isso que tem 50 anos. A Mostra já nasceu na adversidade, durante a ditadura civil-militar, em 77. Enfrentou censura, enfrentou pandemia, enfrentou um governo que atacava a cultura, enfrentou até a doença e a morte do Leon, e também o recomeço. É como se a Mostra fosse uma pessoa: a gente não desiste de viver um ano porque tem algo difícil. Em 2026, quais são as batalhas? Renata de Almeida: Tem questões que vamos ter que discutir depois, como em relação à Lei Rouanet, que eu acho que se desvirtuou do propósito de quando ela foi criada. Hoje ela virou quase uma verba extra de marketing. E não era essa a intenção, fazer coisas encomendadas para empresas, e sim que a lei ajudasse a mostrar para as empresas como patrocinar as propostas que já existem. Mas a gente ainda vai conversar sobre isso. Vamos ver o que vai acontecer com as eleições, que eu acho que é o grande desafio de hoje. A gente viu um Congresso eleito muito da extrema-direita, que já demonstrou ataques à cultura, ciência, e educação. Eu acho que o país vai ter um desafio e tanto com o que vem por aí, independente da presidência. Mas é um desafio para o futuro, que a gente ainda vai começar a enfrentar. Já a Mostra deste ano é de celebração. A gente trabalhou bastante para isso. Há dois anos temos trabalhado no site do acervo da Mostra, que já está no ar. A gente uniformizou tudo, para ter um site para pesquisa, e esse foi um desafio também. Porque, com isso que eu estava falando da Lei Rouanet, o que acontece é que você não tem apoio para acervos, e é caro manter. Teve essa ilusão de que a tecnologia ia ser a democratização, porque iria baratear tudo, e não é bem assim. É o grande desafio que a gente tem hoje, lidar com essa tecnologia que não quer ter regra nenhuma. A gente está apresentando nesta Mostra o filme Musk, que tem quatro horas, desse personagem que é a pessoa mais rica do mundo e quando teve um trabalho público resolveu tirar o dinheiro das pessoas mais pobres do mundo. Nós também lançamos a exposição do Solar Fábio Prado para comemorar os 50 anos da Mostra, que eu fiquei muito na dúvida a princípio, porque achei que era muito cabotino fazer uma coisa sobre nós mesmos. Mas me convenceram falando, poxa, são 50 anos, se não fizer agora, vai fazer quando?. E hoje, que eu estou meio pessimista após essa eleição, eu penso que, se a Mostra não existir mais, pelo menos a gente vai celebrar 50 anos. Vamos festejar enquanto a gente pode. E essa exposição é uma festa. Ela conseguiu reproduzir um pouco do que é Mostra: uma convergência de pessoas, de filmes, de nacionalidades, de ideias, de gente que se encontra, que conversa, que troca. Voltando à tecnologia, nesta edição vocês deram destaque para o filme O Outro Lado das Redes, que traz uma crítica sobre as plataformas. Muita gente vê a sala de cinema hoje como um refúgio. Renata de Almeida: É isso, hoje todo mundo sente uma necessidade de emitir opinião muito rápido, e o tempo da reflexão está se perdendo. O cinema propõe isso, que você fique quieto, escutando pessoas e ideias, acompanhando uma história do começo ao fim. Às vezes, no meio, você pode estar irritado porque vai contra algo que você acredita, mas fica até o final entendendo as razões. É algo que a gente está perdendo na vida. Nós começamos a fazer a Mostrinha (edição voltada às crianças) um pouco por isso também, porque o pessoal da educação fala em um problema de déficit de atenção muito grande. E fazemos com o mesmo propósito da Mostra, de trazer filmes de lugares diferentes, com ideias diferentes, e não só o cinema americano. A discussão sobre a inteligência artificial no cinema tem aumentado, e divide os realizadores. O que você pensa sobre o uso da IA em etapas da criação e produção cinematográfica? E como você vê essas mudanças em um quadro maior, em relação ao valor da arte e da cultura? Renata de Almeida: A inteligência artificial pode ser uma ferramenta, mas ela não está sendo desenvolvida para lavar louça, né? Desenvolvem uma inteligência artificial para pensar. Isso tem um lado perigoso. Eu até uso para pesquisa, mas só aquilo que eu possa ver a fonte, porque muitas vezes eu abro o artigo original e percebo que a IA deturpou. Tem coisas para as quais pode ser maravilhoso usar a inteligência artificial. Por exemplo, uma das exigências do Ministério da Cultura é a acessibilidade, o que é muito bom, mas ela é caríssima, e as empresas que estão aí não dão conta. Mas a IA tem que ser controlada. A gente vive em mundo que tem regra: eu não posso passar no sinal vermelho com o meu carro. Se eu falo uma mentira, vou ser processada. O meio tecnológico também precisa ter leis, senão é faroeste. Drones estão colaborando com genocídio, matando crianças, e tem uma coisa da isenção da tecnologia que é perigosíssima. Alguém tem que ser culpado. No cinema, essa discussão sobre a tecnologia é antiga. A assistente do Akira Kurosawa conta em um livro que a gente lançou (À Espera do Tempo, pela Cosac Naify) como era difícil fazer Ran com todos os extras, você tinha uma chance de filmar. Em O Sacrifício, do Andrei Tarkovsky, tinha a cena do incêndio da casa. Ele queria fazer outra tomada e demorou um tempão para conseguir dinheiro para outra, porque a primeira já tinha queimado. Com a digitalização, os extras puderam ser repetidos, por exemplo. Isso já está sendo usado há muitos anos no cinema. Com a inteligência artificial vai acontecer também. Agora, o que dá medo é de se perder o craft do cinema. É de se perder a animação, coisas tão ricas... A gente tem que saber dosar. Temos que pensar em como usar a inteligência artificial de modo que a gente não perca a nossa capacidade de raciocinar e criar. O que a gente não usa, a gente atrofia. Quanto mais as pessoas perdem a capacidade de raciocinar, mais fácil elas são dominadas. Renata de Almeida e Francis Ford Copolla em cerimônia de premiação da Mostra na Cinemateca (2024). Mario Miranda Filho/Agência Foto "Antes Que Eu Me Esqueça" (Cosac), livro de Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na capa, Marisa Paredes, Pedro Almodóvar e Rossy de Palma. Divulgação Queria saber mais sobre o seu livro de memórias lançado agora. E também sobre os outros trabalhos editoriais que vocês desenvolveram nesses 50 anos de Mostra, como o livro que o Leon Cakoff publico e a coleção com a Cosac Naify. Renata de Almeida: Nós fizemos livros lindos e históricos com a Cosac Naify sobre diretores (entre eles, Pier Paolo Pasolini, Abbas Kiarostami, Yasujiro Ozu e Manoel de Oliveira). Quando a Cosac Naify parou, fizemos outros livros com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, que não existe mais. Com eles, o Leon fez um livro dos 30 anos da Mostra, Cinema Sem Fim. E aí a Cosac voltou e eu comecei a escrever o meu livro com o incentivo da minha amiga Cris Guzzi, que vem do mundo das letras. Achei que era hora de uma reflexão: eu fiz 60 anos, a Mostra está fazendo 50. E eu quis escrever algo que ninguém mais pudesse. Por isso, apesar de o livro falar da Mostra, é ao mesmo tempo muito pessoal. Tem várias histórias de bastidores, de coisas que deram errado no processo, porque eu acho que é legal você ler algo que deu errado e que a pessoa continuou ou corrigiu, porque na vida tanta coisa dá errado. O livro chama Antes que eu me esqueça, que é a frase que eu mais falo na minha vida, porque eu estou esquecendo muito. Foi um processo em que eu revisitei histórias, me revisitei em diferentes épocas da vida, com diferentes idades. Tem coisas políticas, falo sobre a doença do Leon, o luto com a morte dele, a questão da maternidade e do trabalho. Quase fiquei louca. Eu te juro, não tive um fim de semana, não vi amigos, foi quase só trabalho. Nessa Mostra eu estou chegando bem cansada. Mas estou feliz. E, para a comemoração dos 50 anos, também estamos lançando um livro lindo com os 50 pôsteres, em A3. Foi uma edição que fizemos internamente. Nele eu resolvi escrever um pouquinho sobre a Mostra e sobre cada pôster. Leon Cakoff e Renata de Almeida na 34º Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Divulgação/ Aline Arruda/ Agencia Foto Depois da morte do Leon, você quis continuar o trabalho que faziam juntos e a Mostra seguiu crescendo. Foi difícil ser acreditada enquanto mulher? Em algum momento você sentiu que as pessoas não confiavam que pudesse fazer sem ele? Renata de Almeida: Foi difícil. Eu já fazia há muito tempo, 22 anos. Mas como tem machismo, né? E era muito mais do que agora. Vamos ver o que vai ficar daqui para frente, mas era muito mais. Inclusive porque nós éramos casados, aí o preconceito era maior ainda. Já ouvi pessoas dizendo que o Leon afirmou algo, quando tinha sido eu que falei, por exemplo. Mas a gente lidava de uma maneira diferente, a gente até fingia que era, deixava quieto, porque você quer fazer as coisas acontecerem. Quando o Leon morreu, aí sim, teve várias indicações. Você tem que chamar fulano, ciclano, para fazer a Mostra, e eu dizia: Como assim? Eu vou fazer, com a equipe da Mostra. Nós já fazemos isso há muito tempo e a gente tem condições de fazer. E claro que todas as indicações eram de homens. Mas eu tinha duas crianças pequenas. Às vezes nem era maldade das pessoas, era porque eu tinha duas crianças que tinham perdido o pai. E eu tinha que me dividir, tentar segurar todas as barras. Mas você fez acontecer. Renata de Almeida: É, só que fiquei no vermelho, esse foi o problema. Eu acho que eu estava querendo tanto provar que era capaz, e estava tão perturbada. Aliás, todo mundo estava, a morte do Leon foi um grande terremoto. Porque você tem que achar uma outra maneira de trabalhar, a equipe tinha que entender que não é que eu iria para o lugar dele, a gente tinha que descobrir uma nova maneira de trabalhar todos juntos. Teve um descontrole. Além disso, o patrocinador deu o cano um pouquinho antes, e se você perde um patrocinador muito em cima, já está com tudo contratado, é muito difícil reverter. Mas ninguém soube que eu fiquei no vermelho na época, não contei para ninguém. Depois a gente recuperou, mas a Mostra foi mesmo magnífica, super forte. E uma prova de que eu era capaz. Fizemos uma exposição belíssima no MASP das polaroides do Tarkovsky e um livro dele, vieram vários estudiosos. Nos anos seguintes, foram várias Mostras muito fortes. Teve cartaz do Scorsese, do Almodóvar, da Christiane Kubrick, foi maravilhoso. Eu tive muito apoio. Lembro do Danilo Santos de Miranda, do SESC, e de patrocinadores que continuaram. Tive alguma torcida contra também, mas muito apoio. E sou muito grata a todo esse apoio para poder continuar, senão seria impossível. Enquanto curadora, o que busca quando está montando a Mostra? E o que projeta para o futuro? Renata de Almeida: O cinema reflete um pouco o estado do mundo. E tem algo de jornalístico também, muito no documentário, mas também na ficção, quando você traz questões que geram reflexão, só que o cinema tem um tempo. Busco também um olhar para uma diversidade de várias maneiras de fazer cinema, de vários lugares do mundo. Porque eu acredito que o cinema é capaz de criar uma empatia com outras culturas e pessoas distantes, quando você vê que essas pessoas têm mais em comum com você do que pensava, mais problemas e questões. E claro que nós também temos aqueles filmes que todo mundo quer ver, que foram premiados nos festivais, ou que são mais pop. Mas sempre é preciso deixar um lugar para a história do cinema, porque tem uma nova geração que está chegando, e o público da Mostra é muito jovem, se renova todo ano. Isso me emociona, me surpreende. Eu acho incrível, uma felicidade, para um evento que tem 50 anos e que às vezes é um outro tipo de cinema, que a pessoa tem que se aventurar. A curadoria eu faço com uma equipe grande. A gente recebe 1.700 filmes. Sobre o futuro, a Mostra depende de patrocínio, depende de ter meios para ser feita, de uma equipe que queira fazer, porque sozinha eu não faço nada. A Mostra é feita por várias pessoas que estão aqui do meu lado. E também tem que ter público. Enquanto tiver esses elementos, eu acho que ela continua, seja comigo ou com outras pessoas. A Mostra é esse pensamento e esse encontro.
Fonte: cbn.globo.com