Sistema interrompe negociações quando o Ibovespa registra quedas acentuadas; medida já foi acionada 23 vezes no Brasil
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que derrotou Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, colocou o mercado financeiro em alerta para a possibilidade de um circuit breaker nesta segunda-feira, 26. O mecanismo, utilizado pela B3, interrompe temporariamente as negociações quando o Ibovespa registra quedas acentuadas, em uma tentativa de conter movimentos extremos de volatilidade.
A preocupação ganhou força após a reação negativa dos ativos brasileiros negociados no exterior. Na manhã desta segunda-feira, o EWZ, principal fundo de índice (ETF) de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, chegou a registrar queda superior a 20% no pré-mercado. O movimento sinaliza uma possível pressão sobre a bolsa brasileira.
A vitória de Lula contrariou as expectativas de parte dos investidores, que haviam ampliado suas posições em ativos brasileiros diante da possibilidade de uma mudança na condução da política econômica. Com o resultado eleitoral, analistas passaram a projetar uma correção nos preços das ações, além de pressão sobre o dólar e os juros futuros.
O que é circuit breaker e como funciona?
O circuit breaker é um mecanismo de segurança criado para interromper as negociações na bolsa de valores durante períodos de forte instabilidade. Seu objetivo é oferecer uma pausa para que os investidores possam reavaliar suas decisões e para que o mercado tenha tempo de absorver informações que estejam provocando oscilações acentuadas nos preços.
Na B3, o sistema funciona em três etapas. A primeira é acionada quando o Ibovespa acumula queda de 10% em relação ao fechamento do pregão anterior. Nesse caso, as negociações são interrompidas por 30 minutos. Se, após a retomada das operações, o índice atingir uma desvalorização de 15%, ocorre uma segunda paralisação, desta vez por uma hora. Caso a queda alcance 20% depois da nova reabertura, a B3 pode suspender as negociações por um período definido pela própria instituição.
As regras não podem ser acionadas nos últimos 30 minutos do pregão. Além disso, caso haja uma interrupção na última hora de negociação, o encerramento da sessão poderá ser prorrogado por até 30 minutos. Durante a suspensão, os investidores ficam temporariamente impedidos de negociar os ativos abrangidos pelo mecanismo. Isso não significa que a bolsa tenha encerrado suas atividades definitivamente ou que os preços das ações estejam impedidos de continuar caindo após a retomada.
Quantas vezes o circuit breaker foi acionado no Brasil?
Desde sua implementação, em 1997, o circuit breaker já foi acionado 23 vezes na bolsa brasileira, segundo levantamento histórico da B3. As interrupções ocorreram em diferentes momentos de crise econômica, financeira e política, tanto no Brasil quanto no exterior.
O primeiro episódio aconteceu em outubro de 1997, durante a crise financeira asiática, que provocou uma onda de desvalorização nos mercados internacionais. Naquele ano, o mecanismo foi acionado três vezes. Em 1998, a crise financeira da Rússia levou a cinco interrupções na bolsa brasileira. No ano seguinte, a mudança no regime cambial brasileiro e a forte desvalorização do real provocaram mais duas paralisações.
A crise financeira internacional de 2008 também teve consequências para o mercado brasileiro. Com o colapso do banco americano Lehman Brothers e o agravamento da crise de crédito, a bolsa registrou seis acionamentos do mecanismo entre setembro e outubro daquele ano. Depois de quase uma década sem interrupções, o circuit breaker voltou a ser acionado em 18 de maio de 2017, durante o episódio que ficou conhecido como Joesley Day. Na ocasião, a divulgação de gravações envolvendo o empresário Joesley Batista, da JBS, e o então presidente Michel Temer provocou uma forte reação negativa dos investidores, em meio ao temor de agravamento da crise política.
O episódio mais recente ocorreu em março de 2020, no início da pandemia de covid-19. A rápida disseminação do coronavírus, combinada à queda dos preços internacionais do petróleo, provocou uma onda de aversão ao risco nos mercados globais. Em apenas dez dias, a bolsa brasileira registrou seis acionamentos do circuit breaker. No dia 12 de março, o mecanismo precisou ser utilizado duas vezes durante o mesmo pregão, após o Ibovespa atingir os limites de queda previstos nas regras da B3.
A possibilidade de uma nova interrupção passou a ser discutida por analistas após a confirmação da reeleição de Lula, no domingo, 25. O presidente recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, resultado que contrariou as expectativas de parte dos agentes financeiros.
O movimento de queda dos ativos brasileiros no exterior reforçou a preocupação com uma abertura de mercado marcada por forte volatilidade. Em relatório divulgado antes do segundo turno, a corretora Monte Bravo estimou que o Ibovespa poderia registrar queda superior a 10% caso Lula fosse reeleito. Apesar das projeções, o acionamento do circuit breaker depende exclusivamente da oscilação efetiva do Ibovespa durante o pregão. Uma queda expressiva nos contratos futuros, no dólar ou em ações brasileiras negociadas no exterior não provoca automaticamente a suspensão das operações na B3.
Fonte: veja.abril.com.br