Exibido pela Mostra de SP, o filme que representa a Polônia no Oscar retrata viagem do Nobel da Literatura em uma Alemanha dividida
Em 1949, Thomas Mann (1875-1955) voltou à sua terra natal, a Alemanha, após dezesseis anos no exílio. O Nobel de Literatura, autor do incensado romance A Montanha Mágica, fugiu do país em 1933, com a ascensão do nazismo corrente da qual ele já era um ferrenho crítico, além de inimigo político declarado de Adolf Hitler. Após a II Guerra, o retorno ao país se tornou possível, mas o reencontro com o que poderia ser chamado de lar, não: a Alemanha nunca mais seria a mesma nem mesmo o mundo.
Assim se revela o cenário melancólico e, por vezes, irônico do filme A Terra do Meu Pai, do polonês Pawe Pawlikowski, que saiu premiado de Cannes como melhor diretor este ano pela produção honraria que ele agrega a outros troféus, como o Oscar conquistado pelo longa Ida. Com Hanns Zischler na pele do escritor e a sensacional Sandra Hüller como sua filha, Erika, o longa acompanha a breve viagem dos dois ao país de origem, motivada pelas homenagens que Mann recebeu em ambos os lados da Alemanha, o oriental e o ocidental.
Envoltos pelas imagens em preto e branco hipnotizantes do diretor de fotografia ukasz al, estética que já se tornou uma assinatura dos filmes de Pawlikowski, Thomas e Erika testemunham o início da polarização política da Guerra Fria, que separou o mundo entre capitalistas e socialistas, tendo a Alemanha como seu palco mais cruel, com uma fronteira demarcando fisicamente os dois lados dentro do mesmo país. A viagem de carro começa em Frankfurt, na zona de ocupação americana, e segue até Weimar, na zona soviética e cidade associada a Goethe, um dos grandes ídolos de Mann. Ambos os lados ainda estão em fase de reconstrução, com marcas visíveis nos prédios destruídos por bombas, assim como na moral abalada dos indivíduos. Enquanto Frankfurt demonstra a liberdade pregada pelos Estados Unidos que também acaba abrigando nazistas que se dizem redimidos , o lado soviético exagera na opressão e no controle, prendendo alemães que não são nazistas, mas apenas opositores da nova ordem social.
Transitar pelos dois lados dentro do carro do escritor torna a viagem segura para o espectador famoso e aclamado, Thomas Mann é cobiçado e tratado como rei pelas duas Alemanhas. Não deixa, contudo, de ser uma jornada dolorosa para quem, hoje, no século XXI, ainda testemunha a força devastadora e retrógrada da polarização entre os próprios compatriotas. A Terra do Meu Pai integra a programação da Mostra de Cinema de São Paulo e chega aos cinemas do país no dia 29 de outubro.
Fonte: veja.abril.com.br