Escoladíssimo nas artes da política, Netanyahu enfrenta uma eleição que pode encerrar seu reinado - ou então dar a volta por cima que sempre deu
A eleição em que o mundo todo está realmente prestando atenção é amanhã em Israel, e as pesquisas dão resultados tão apertados que não dá para dizer quem vai ganhar. Outra semelhança com o Brasil: um líder político de quase 80 anos que praticamente definiu sua luta contra o desejo de mudança e mais uma vez demonstra sua extraordinária capacidade de sobrevivência.
Em Israel, o sistema político é parlamentarista, bom quando há crises profundas que exigem mudanças de governo sem ter que esperar pelo fim do mandato de um presidente; ruim, pela indefinição, quando os resultados estão muito apertados, como agora.
Para governar, um primeiro-ministro precisa ter 61 votos no Parlamento, mas isso nunca acontece. Na véspera da eleição, as pesquisas dão 52 deputados para o bloco oposicionista, que vai da centro-esquerda à direita não religiosa, e 50 para o bloco do governo.
Significa que Netanyahu está perdido? Tudo depende da capacidade de cada um dos lados de conquistar mais aliados. O bloco oposicionista prometeu não se aliar aos dois partidos que representam a população palestina com cidadania vale lembrar, consideráveis 20% do total de Israel , mas poderia fazer um acordo de aliança implícita, em que os parlamentares árabes não apoiam um voto de desconfiança contra o governo.
BOMBA SOBRE TELAVIVE
Netanyahu tem mais espaço para atrair aliados: os dois partidos ultrarreligiosos, Judaísmo Unido da Torá, do ramo asquenaze, e o Shas, dos judeus sefarditas. Ambos já participaram de governos com o primeiro-ministro.
Existe ainda a possibilidade, embora distante, de um governo de união nacional. Isso é mais comum em momentos de crise existencial extrema. Algumas outras alternativas podem ser tentadas. Se todas falharem, tem que haver novas eleições.
Netanyahu faz campanha dizendo que os oposicionistas são fracos e preferidos pelos múltiplos inimigos de Israel. Quem acha que a campanha brasileira teve momentos incendiários precisaria ver a apelação de Israel: Bibi publicou uma imagem de inteligência artificial simulando a explosão de uma bomba atômica sobre Telavive, um segundo Holocausto promovido pelo Irã.
A ideia de que o primeiro-ministro é cheio de defeitos, mas tem um pulso insubstituível no confronto com os inimigos de Israel, explica como ele sobreviveu à catástrofe de 7 de outubro de 2023, quando o país foi pego totalmente de surpresa pelo ataque das forças do Hamas vindas de Gaza.
ERROS SISTÊMICOS
O massacre de 1,2 mil pessoas num país cuja razão de existir é a preservação da vida dos judeus seria fatal para a sobrevivência política de qualquer primeiro-ministro que não fosse Benjamim Netanyahu.
Ele não só não assumiu nenhuma responsabilidade como também não permitiu que uma comissão independente investigasse os erros sistêmicos que permitiram ao país ser surpreendido desprevenido.
Netanyahu tem um adversário forte na figura do nome predominante no bloco de oposição, Gadi Eisenkot, um general que foi chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e perdeu um filho e dois sobrinhos na guerra de Gaza. Eisenkot é descendente de judeus marroquinos e não tem o traquejo de Netanyahu, que morou, estudou e trabalhou nos Estados Unidos.
Irão os israelenses votar pela mudança, com um general com pouca experiência política como alternativa, ou ainda considerarão seu destino inexoravelmente ligado ao homem com, ao todo, dezenove anos de poder?
Fonte: veja.abril.com.br