O governo de São Paulo assinou nesta quinta-feira (22) o contrato da parceria público-privada (PPP) para a construção do Centro Administrativo Campos Elíseos, na região central da capital. O extrato foi publicado no Diário Oficial do Estado nesta sexta-feira (23). O valor total estimado do contrato é de R$ 6,1 bilhões, em valores de julho de 2025. O projeto transfere a sede administrativa do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, para um complexo no entorno da Praça Princesa Isabel. A

O governo de São Paulo assinou nesta quinta-feira (22) o contrato da parceria público-privada (PPP) para a construção do Centro Administrativo Campos Elíseos, na região central da capital. O extrato foi publicado no Diário Oficial do Estado nesta sexta-feira (23). O valor total estimado do contrato é de R$ 6,1 bilhões, em valores de julho de 2025. O projeto transfere a sede administrativa do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, para um complexo no entorno da Praça Princesa Isabel. A proposta é reunir cerca de 22 mil servidores estaduais que atualmente trabalham em mais de 40 endereços na capital. Serão sete edifícios e dez torres para o gabinete do governador e 28 secretarias e órgãos estaduais. Mesmo com a mudança, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) vai continuar morando no Palácio dos Bandeirantes. O contrato foi firmado com a Concessionária Novo Centro SP, criada pelo Consórcio MEZ-RZK Novo Centro, que venceu o leilão realizado em 26 de fevereiro, na B3. O consórcio ofereceu desconto de 9,62% sobre a contraprestação mensal máxima, fixada em R$ 76,6 milhões. O consórcio é formado pelas empresas Zetta Infraestrutura, M4 Investimentos, Engemat, RZK Empreendimentos Imobiliários e Iron Property. A concessão é de 30 anos, contados a partir da ordem de início. Nesse período, a concessionária será responsável pelas obras, pela operação e pela manutenção do complexo, e o estado vai pagar cerca de R$ 69,2 milhões por mês. A empresa também poderá explorar comercialmente estacionamentos, lojas e restaurantes no local. Obras dos prédios começam no terceiro ano Pelo cronograma divulgado pelo governo, o primeiro ano será dedicado aos projetos, às licenças, às desapropriações e ao início das obras do Terminal Luz, que vai substituir o Terminal Princesa Isabel. As obras dos prédios começam a partir do terceiro ano, as primeiras entregas estão previstas para o quarto e a conclusão para o quinto. Tarcísio prometeu entregar o centro administrativo em 2030. O projeto arquitetônico, do escritório Ópera Quatro Arquitetura, foi escolhido em concurso nacional organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP). Ele prevê o restauro de 17 casarões tombados e do Palácio dos Campos Elíseos, que já foi sede do governo paulista e será ligado ao novo complexo por um túnel. O plano inclui ainda a construção de mais de 6 mil moradias na região, 55% delas para a população de baixa renda, a transformação da praça em um boulevard e trechos exclusivos para pedestres nas ruas Helvétia, Guaianases e na Alameda Glete. Segundo o governo, as obras devem gerar cerca de 38 mil empregos. Para viabilizar o projeto, cerca de 230 imóveis residenciais serão desapropriados. Aproximadamente 600 famílias foram mapeadas na área de intervenção, e parte delas já está cadastrada para receber indenização ou ser incluída em programas habitacionais. O governo estima gastar cerca de R$ 500 milhões com desapropriações. Parte da área é classificada como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), o que obriga a previsão de habitação popular. Secretário fala em projeto 'ganha-ganha' Coordenador do projeto, o secretário de Projetos Estratégicos de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, disse à CBN que a mudança vai além da área administrativa e tem como objetivo requalificar uma região marcada pela presença da Cracolândia. "O paulistano tem uma frustração de ver a sua história jogada na mão do crime organizado, na Cracolândia", afirmou. Segundo ele, a ideia é que o bairro, que concentra equipamentos como a Sala São Paulo, a Pinacoteca e o Museu da Língua Portuguesa, volte "a ser aquilo que sempre foi". Afif também citou a economia com a centralização. De acordo com o secretário, a área ocupada por escritórios do governo vai cair de 800 mil para 250 mil metros quadrados. "Você está reduzindo enormemente os custos de manutenção, de locação e ganho de eficiência na administração pública. Portanto, é um projeto ganha-ganha", disse. Sobre os imóveis que serão desocupados, o secretário afirmou que alguns serão vendidos e que os prédios tombados serão reformados para voltar a ser usados. Ele citou como exemplos o antigo Hotel Esplanada, atrás do Theatro Municipal, que deve virar um hotel residência, o Cine Marrocos, que deve ser restaurado como casa de espetáculos, e o edifício do Banco São Paulo, que deve receber um hotel boutique e uma área de entretenimento. Afif afirmou que a entrega em 2030 está mantida e que a primeira etapa será a construção do novo terminal de ônibus perto da Estação da Luz. Questionado sobre o aumento do valor estimado, de R$ 5,4 bilhões no edital para R$ 6,1 bilhões no contrato, e sobre o total a ser pago pelo estado ao longo dos 30 anos, o secretário disse que os R$ 6 bilhões correspondem ao investimento nas obras, dividido entre o estado e a concessionária e desembolsado nos próximos cinco anos. O restante, segundo ele, é a contraprestação mensal paga durante a concessão pela administração e manutenção dos prédios, da praça e dos estacionamentos. Afif não informou o valor total a ser pago ao longo do contrato nem a economia anual estimada. Urbanista apoia a estratégia, mas aponta pontos frágeis O arquiteto e urbanista Valter Caldana, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, disse à CBN que é favorável ao projeto desde o início. Para ele, o mérito está na estratégia de usar a sede do governo como uma atividade âncora para atrair moradia para a região. Analisada só pelo lado administrativo, porém, a mudança faz menos sentido. "O que você vai transferir para os prédios novos, boa parte já está no centro. Você está trocando seis por meia dúzia, se só olhar essa questão do administrativo", afirmou. Caldana considera positivas as 6 mil moradias previstas, mas diz que é preciso acompanhar as condições de financiamento. Como as unidades contam com garantia do estado, os juros cobrados não podem ser os mesmos do mercado, segundo ele. O professor também defende que a população que já vive na região seja atendida para além da troca de um imóvel por outro, com respeito à diversidade social, cultural e econômica do bairro. "Essa identidade vai mudar com a chegada do projeto. Mas ela não pode ser esmagada", disse. O urbanista aponta dois pontos frágeis. O primeiro é o destino dos prédios que serão desocupados. Para ele, será difícil atrair interessados para imóveis antigos, com problemas de manutenção e de acesso, ao mesmo tempo em que a região ganha um complexo novo com financiamento facilitado. O segundo são as desapropriações, que pelo contrato cabem à concessionária.
Fonte: cbn.globo.com