Levantamento do MapBiomas indica aumento de 45% no número de fragmentos vegetais em 38 anos, enquanto a extensão média caiu 43% devido ao desmatamento
Entre 1986 e 2024, a vegetação nativa brasileira sofreu uma acelerada divisão de suas áreas contínuas devido ao avanço do desmatamento e da expansão de pastagens, lavouras e áreas urbanas. Mapeamento do módulo de Degradação do MapBiomas, baseado na Coleção 11 de dados de uso da terra, revela que Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná concentram 49% dos 3,41 milhões de fragmentos do país. A perda de extensão contínua isola remanescentes e compromete os ecossistemas.
Em 38 anos, o total de fragmentos saltou de 2,35 milhões para 3,41 milhões no Brasil, enquanto a área média caiu de 287 para 163 hectares. A fragmentação afeta sobretudo o Sul e o Sudeste, onde 46% dos municípios têm área média inferior a 25 hectares. São João de Meriti (RJ) apresenta a menor média nacional, de 1,9 hectare por fragmento. Já a região Norte reúne os maiores blocos preservados, liderada pelo Amazonas, com média de 4 mil hectares por fragmento, e por Itamarati (AM), com 65,6 mil hectares.
A Mata Atlântica e o Cerrado somam a maior quantidade de fragmentos, com 1,38 milhão e 957 mil porções, respectivamente. Na Amazônia, o fracionamento disparou 260%, enquanto a área média despencou 76%. Para Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador técnico do MapBiomas, a divisão ameaça as espécies: Essa redução da conectividade afeta diretamente a capacidade de dispersão e reprodução das espécies nativas que vivem nesses fragmentos, reduzindo o fluxo gênico e aumentando o risco de extinções locais, alerta Conciani, destacando que a fragmentação eleva a exposição ao fogo e aos efeitos de borda.
O estudo mostra ainda que entre 10% e 24% da vegetação nativa está exposta a vetores de degradação, afetando até 134,8 milhões de hectares em 2024. As áreas de borda abrangem de 7% a 18% da cobertura vegetal do país. A Mata Atlântica é o bioma proporcionalmente mais exposto (33% a 70%), enquanto o Cerrado lidera em área absoluta degradada.
Os dados inéditos buscam orientar ações de restauração e conservação da biodiversidade. Segundo Eduardo Vélez, pesquisador da GeoKarten e membro do MapBiomas, o diagnóstico é estratégico para evitar o agravamento do problema: As informações inéditas disponibilizadas e atualizadas sobre a fragmentação da vegetação nativa no Brasil são estratégicas para entender a dimensão do problema, evitar seu agravamento e inclusive orientar ações de restauração na busca de maior conectividade ecológica, ressalta Vélez, lembrando que o tema correlaciona-se com as discussões da COP 17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, em Yereván, na Armênia.
Fonte: veja.abril.com.br