Rainha da sofrência continua entre as artistas mais ouvidas do país
Toda canção de sofrência tem um destinatário. O de De Quem É a Culpa? é revelado na série documental Marília Mendonça: Sentimento Louco, que estreia no Prime Video nesta sexta-feira 16. A música foi inspirada em um romance relâmpago da cantora goiana com o fotógrafo e diretor artístico Flaney Gonzallez. Acho que ela ficou com ele uma vez, arrisca a amiga Maiara, dupla de Maraisa, em depoimento. O encontro durou bem menos que o sucesso da canção: a faixa de 2017 acumula mais de 830 milhões de reproduções entre o Spotify e o YouTube. Dirigida por Susanna Lira, a série de quatro episódios se debruça sobre um material inédito: são 530000 imagens e 50000 vídeos extraídos do celular e do computador de Marília, além de mensagens e áudios de WhatsApp. Somam-se a eles cerca de 100 entrevistas feitas com familiares, com destaque para a mãe da artista, Ruth Moreira, e para o ex-namorado e pai do filho dela, Murilo Huff, além de amigos e parceiros da indústria, como Zezé Di Camargo e Paula Fernandes.

Cinco anos após sua morte precoce, aos 26, em um acidente aéreo, a cantora e compositora é tema de vários projetos. Além da série, há uma exposição em cartaz no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, o livro biográfico O Rastro da Rainha, da jornalista Carol Prado, que sai em novembro, e um filme de ficção, também do Prime, para 2027, com a atriz Marina Versos na pele de Marília. Para além de homenageá-la, esses títulos tentam entender o fascínio inesgotável que ela ainda provoca.
A habilidade poética, a voz empoderada e a maturidade precoce são algumas das razões que explicam tamanho sucesso. Ainda pequena, Marília dizia a Ruth: Você é a mãe e eu sou o pai. Aos 13, foi contratada como compositora por um escritório de Goiânia, e o salário de 3000 reais passou a sustentar a família. Escrevia sobre dores da vida adulta antes de ser uma. Quando se lançou como cantora, inovou misturando o gênero ao brega e dando voz aos excluídos, como a outra, em Amante Não Tem Lar, e a garota de programa de Troca de Calçada. Marília mudou o eu lírico do sertanejo, resume a diretora Susanna Lira. Quase nenhum entrevistado consegue falar dela sem um nó na garganta. Para o público, ela jamais foi esquecida. Marília continua entre as mais ouvidas do Brasil. No Spotify, soma hoje 11,7 milhões de ouvintes mensais.

Com a família acompanhando tudo de perto, havia o receio de que a narrativa chapa-branca dominasse a série do Prime Video. O documentário, porém, não esconde a personalidade forte da estrela. Marília viveu intensamente: bebia, fumava, era baladeira, se apaixonava fácil e brigava com frequência. Ninguém chega nesse lugar aos 26 anos sem colocar o pé na porta o tempo todo, afirma Susanna Lira. A rainha da sofrência segue imbatível.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017
Fonte: veja.abril.com.br