Proposta de Flávio pode elevar gastos em R$ 200 bilhões e comprometer promessa de corte de 250 bilhões, acendendo sinal amarelo entre investidores
Analistas do mercado financeiro veem com preocupação a proposta do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) de usar 200 bilhões de reais da União para comprar as dívidas da população e conceder carência de seis meses a um ano. Segundo os especialistas, o mercado começa a questionar se o senador apresentará, de fato, uma agenda fiscal responsável, diante da falta de detalhes sobre os cortes de gastos e de promessas que se afastam da austeridade fiscal.
Durante o debate neste domingo, 18, Flávio prometeu comprar as dívidas da população com recursos adicionais de 200 bilhões de reais da União. Segundo o filho do ex-presidente, o governo compraria os débitos dos brasileiros junto aos bancos e suspenderia os pagamentos por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas.
No meu governo, a gente vai comprar a sua dívida dos bancos. E o que vai acontecer com isso? Vai ser já por um valor muito menor, afirmou Flávio.
Para você que é pessoa física, vai ficar seis meses parada a sua dívida. Você não vai pagar boleto nenhum. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano, acrescentou. Segundo o candidato, parcelas de 100 a 200 reais poderiam cair para 10 ou 20 reais.
Flávio não detalhou de onde viriam os recursos para o programa de renegociação de dívidas. O candidato, que durante a campanha foi visto pelo mercado como defensor do ajuste fiscal, começa a perder o benefício da dúvida dos investidores.
Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, afirma que o gasto adicional de 200 bilhões de reais anunciado pelo candidato equivale a aproximadamente 3,8 vezes o déficit primário de 53 bilhões de reais projetado pelo mercado para 2026.
Isso significa que, se o programa representar gasto adicional integral, seu impacto poderá comprometer de maneira significativa qualquer esforço de ajuste fiscal, afirma Murad.
Eduardo Gonçalves, gestor de portfólio da Aurum Wealth Management, avalia que a proposta pode comprometer outra medida de Flávio Bolsonaro bem recebida pelo mercado: a promessa de cortar 250 bilhões de reais em despesas.
Se ele cortar 250 bilhões para gastar 200 bilhões com renegociação de dívidas, a promessa de esforço fiscal dada ao mercado será perdida, comenta Gonçalves.
Outro ponto que começou a incomodar os gestores que defendem o livre mercado e a livre iniciativa é a falta de detalhes sobre como o ajuste fiscal será realizado. Flávio afirma que pretende equilibrar as contas públicas por meio do combate à corrupção, mas também promete manter o ganho real do salário mínimo para aposentados e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Enrico Cozzolino, CEO da Zermat Partners, lembra que um dos principais desafios fiscais do Brasil são as despesas obrigatórias, entre elas os gastos de cerca de 1 trilhão de reais com Previdência e BPC. Além disso, o especialista aponta os pisos constitucionais de saúde e educação como outros fatores de pressão sobre as contas públicas.
Segundo Cozzolino, prometer zerar o déficit com o fim da corrupção não é uma medida que possa ser quantificada ou incorporada de forma concreta ao orçamento.
Combater desvio é obrigação, não é política fiscal. O candidato que apresentar uma regra crível para a dívida e disposição de negociar as despesas obrigatórias com o Congresso vai convencer o mercado. Isso ainda não apareceu com clareza de nenhum lado, diz o especialista.
Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, afirma que as propostas econômicas de Flávio Bolsonaro acenderam um sinal amarelo na Faria Lima. Segundo ele, os investidores veem o senador como o candidato mais alinhado a uma agenda liberal, mas o debate trouxe promessas de alto custo.
O SUS padrão Einstein e a compra de dívidas, sem nenhuma conta por trás. O investidor não reage à promessa em si, ele reage à falta de detalhe. Enquanto não houver uma equipe econômica com nome e um plano com números, essas falas ficam no radar, afirma Trotta.
Na avaliação dos analistas, as propostas recentes aumentaram as dúvidas sobre o compromisso de Flávio com o equilíbrio fiscal. Trotta lembra que o governo de Jair Bolsonaro começou com propostas associadas à direita e à agenda econômica conduzida por Paulo Guedes.
No entanto, segundo o especialista, o fim do mandato foi marcado pela aprovação da PEC dos Precatórios e pela ampliação de benefícios sociais em ano eleitoral, com medidas que flexibilizaram o teto de gastos. Para ele, esse histórico reforça as dúvidas sobre a manutenção da disciplina fiscal diante das promessas de campanha.
Por isso, a pergunta que mais se ouve pelo mercado hoje é sobre quem será o ministro da Fazenda. Um nome com credibilidade fiscal anunciado antes do segundo turno ajudaria muito a reduzir esse ruído, explica Trotta.
Em suma, os analistas avaliam que as propostas recentes de Flávio Bolsonaro aumentam as dúvidas sobre a viabilidade de seu plano de ajuste fiscal e mantêm a Faria Lima em clima de cautela. Parte do mercado já trabalha com a vitória do Flávio, mas quer saber se o discurso de responsabilidade fiscal sobrevive às promessas de campanha, conclui Gustavo Trotta, especialista da Valor Investimentos.
Fonte: veja.abril.com.br