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A herança colonial do Rio está no quarto de empregada, diz escritor português

Em entrevista à coluna GENTE, Hugo Gonçalves aponta diferenças na forma como os países discutem o passado

O escritor português Hugo Gonçalves, 50, que viveu no Rio de Janeiro, considera a cidade um dos exemplos mais evidentes de como a herança colonial permanece presente na sociedade brasileira. Em entrevista à coluna GENTE, o autor de O Império do Fim, lançado em setembro em Portugal, chamou atenção para a divisão social que ainda pode ser observada no cotidiano carioca. O Rio de Janeiro deve ser uma das cidades mais coloniais do Brasil. Vemos nos ascensoristas, nos porteiros, nos garotos que colocam as compras em sacolas nos supermercados uma espécie do que era a sociedade colonial e escravagista, afirmou. O elevador de serviço, o quarto da empregada, tudo isso. O Rio, com todas as coisas fantásticas que tem, e eu adoro o Rio, também tem uma herança colonial muito presente.

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Apesar dessas permanências, Gonçalves acredita que o Brasil avançou mais do que Portugal no debate sobre racismo e colonização. Para ele, a diversidade da população brasileira contribuiu para ampliar discussões que ainda encontram resistência entre os portugueses. A sociedade brasileira é muito mais mesclada, muito mais negra, e está um passo à frente, ou dois ou três, no sentido de falar disso. De falar na academia, na universidade, nos programas de televisão. Em Portugal, ainda temos alguma dificuldade de falar desses temas, disse. O escritor também questiona a narrativa de que a colonização portuguesa teria sido menos violenta do que a de outras potências europeias. As pessoas preferem ter uma visão mais benevolente acerca de si mesmas e dos seus antepassados, afirmou.

A reflexão atravessa seu novo romance, que acompanha dois amigos de infância em Angola, separados pela guerra colonial. Enquanto Cosme, branco e filho de colonos portugueses, integra o Exército de Portugal, Mouzinho, negro, participa da luta pela independência angolana. A história também carrega uma dimensão familiar: o pai do escritor serviu em Luanda, embora não tenha participado diretamente dos combates. Gonçalves recorda que as histórias paternas misturavam nostalgia, amizades e as contradições de uma guerra que deixou marcas em diferentes gerações.

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Questionado sobre possíveis reparações pelos séculos de colonização, o autor defende que Portugal ainda precisa enfrentar uma etapa anterior: reconhecer a violência praticada e rever a maneira como o período é ensinado nas escolas. Antes de pensar em qualquer reparação, é preciso ter essa conversa, assumir e informar as crianças para que tenham outra visão do que foi o Império Colonial. Acho que ainda estamos longe disso, afirmou.

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Fonte: veja.abril.com.br

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